Há forças que não fazem barulho, mas sustentam mundos inteiros. No coração dos serviços de saúde existe uma dessas forças silenciosas, persistentes e indispensáveis: as ENFERMEIRAS. São presença constante nos momentos mais frágeis da vida humana, mas continuam, tantas vezes, ausentes do reconhecimento público que merecem. Os homens enfermeiros padecem na maioria das vezes da mesma desvalorização, mas hoje vamos falar de mulheres!
A enfermagem é, historicamente, uma profissão profundamente feminizada – de acordo com a Ordem dos Enfermeiros, num universo superior a 80 mil enfermeiros em Portugal cerca de 80% são mulheres. Durante décadas, esta profissão foi enquadrada quase como que uma extensão “natural” do papel social atribuído às mulheres: cuidar. Essa associação, aparentemente elogiosa, carregou um efeito perverso. Ao confundir vocação com obrigação e empatia com instinto, esta ligação contribuiu para desvalorizar uma profissão que exige conhecimento científico rigoroso, capacidade de decisão sob pressão e competências técnicas altamente especializadas.
Falar de mulheres na enfermagem é também situá-las no tempo e nas datas que simbolizam a sua importância. O mês de maio, em particular, concentra três momentos que ajudam a iluminar este percurso coletivo. A 5 de maio assinala-se o Dia Internacional da Parteira/Enfermeira Especialista em Saúde Materna e Obstétrica (EESMO), uma profissão independente na Europa e profundamente marcada pela presença feminina. As EESMO acompanham o início da vida com um saber que combina técnica, experiência e sensibilidade, sendo muitas vezes o primeiro rosto de cuidado que um recém-nascido e uma mãe encontram. Poucos dias depois, a 12 de maio, celebra-se o Dia Internacional do Enfermeiro, evocando o legado histórico da profissão e reconhecendo o papel determinante destes profissionais nos sistemas de saúde. Em Portugal, esta data ganha um significado particular quando se observa quem, na prática, sustenta diariamente os cuidados: maioritariamente mulheres que garantem continuidade, proximidade e segurança clínica em contextos muitas vezes exigentes. Ainda em maio, no dia 28, assinala-se o Dia Internacional pela Saúde da Mulher. Esta data amplia o olhar e recorda que falar de mulheres na saúde não é apenas falar de quem cuida, mas também de quem é cuidada. Muitas enfermeiras vivem esta dupla realidade: são simultaneamente profissionais de saúde e utilizadoras de um sistema que nem sempre responde de forma adequada às suas necessidades específicas.
Ao longo dos séculos, as mulheres, as parteiras e as enfermeiras foram pilares discretos de um sistema de saúde em construção. Em contextos de escassez, crise ou transformação, estiveram sempre presentes, no contexto familiar e nos contextos de saúde, como garante do cuidado que cada pessoa precisa, mas também do afeto e da organização, responsabilizando-se por criar um ambiente seguro e de acolhimento. No sistema de saúde em Portugal as enfermeiras, também elas mães, mulheres e filhas estiveram sempre na linha da frente, muitas vezes sem condições adequadas, sem progressão justa e sem voz nas decisões estruturais. Ainda assim, foram moldando ao longo dos anos o Serviço Nacional de Saúde, com a sua visão multifacetada e uma combinação rara de resistência e compromisso.

Hoje, as mulheres continuam a representar a esmagadora maioria dos profissionais de enfermagem em Portugal, chegando a ser 97% em áreas como a enfermagem obstétrica. São mulheres que acompanham pessoas sãs ou doentes e famílias, que traduzem a linguagem técnica em humanidade compreensível e que constituem, frequentemente, o elo mais próximo entre o sistema e quem dele depende. Talvez por isso ainda subsiste em relação aos enfermeiros a visão paternalista do papel da mulher. Essa ideologia patriarcal, herdada historicamente, que continua a tratar os enfermeiros como seres inferiores que precisam de controlo, subvalorizando as suas competências e restring indo a sua atuação! Em pleno século XXI persistem desafios estruturais difíceis de ignorar: a ausência nos órgãos de decisão das políticas de saúde, a sobrecarga de trabalho, a falta de valorização remuneratória e a escassez de progressão na carreira são problemas amplamente reconhecidos. A estes soma-se uma dimensão menos visível, mas igualmente relevante: a exigência de conciliar uma profissão intensa com responsabilidades familiares que continuam a recair, em grande medida, sobre as mulheres. O resultado é um desgaste acumulado que o sistema raramente mede com a precisão que merece.
A pandemia de covid-19 tornou esta realidade impossível de ignorar. Durante meses, o país assistiu à dedicação extrema dos profissionais de saúde, com as enfermeiras a ocuparem um lugar central nesse esforço coletivo de reorganização, de superação para cuidarmos uns dos outros, mas sobretudo para ficarmos “todos bem”! Foram rosto de coragem, de proximidade e de resistência num dos períodos mais exigentes da história recente, deixando muitas vezes os seus para cuidar dos outros e no fundo, num esforço altruísta, para cuidarem de todos nós. Ainda assim, terminado o momento mais agudo da crise, o reconhecimento social voltou a diluir-se na rotina.
Falar de mulheres na enfermagem é, por isso, falar de uma força invisível não porque seja discreta ou dispensável, mas porque continua subvalorizada, sem as mesmas oportunidades na decisão institucional e política. É reconhecer que o SNS não se sustenta apenas em infraestruturas, tecnologia ou decisões políticas, mas também e sobretudo no trabalho diário de quem cuida. É admitir que quem decide em contexto clínico e assegura o funcionamento do SNS 24 horas por dia sabe bem o que é necessário para melhorar o acesso e a resposta do SNS, é aceitar que faltam enfermeiros nas políticas de saúde, no planeamento e nas decisões organizacionais!
Dar visibilidade a estas mulheres não é um gesto simbólico. É um passo necessário para corrigir assimetrias históricas, valorizar carreiras e garantir condições dignas de trabalho. É também uma forma de reforçar o próprio SNS, que depende diretamente da motivação e estabilidade dos seus profissionais.

Voltando, por fim, as atenções para o Dia Internacional pela Saúde da Mulher, foquemos as atenções no que ainda falta fazer: estima-se que 1 em cada 3 mulheres no mundo não tenha acesso adequado a serviços de saúde essenciais ao longo da vida. A realidade torna-se ainda mais grave e urgente quando cerca de 287 mil mulheres morrem anualmente por causas relacionadas com a gravidez e o parto, segundo dados recentes da Organização Mundial de Saúde (OMS), sendo na maioria dos casos por situações evitáveis com acompanhamento qualificado.
Todos os números mencionados neste artigo revelam um paradoxo persistente: as mulheres continuam a ser simultaneamente as principais cuidadoras e, muitas vezes, quem enfrenta maiores fragilidades no acesso a cuidados de saúde. Neste enquadramento, o Dia Internacional pela Saúde da Mulher não é apenas uma data simbólica, mas um alerta contínuo para a necessidade de sistemas de saúde mais equitativos, acessíveis e sensíveis às especificidades da saúde feminina.
Num mês que celebra quem cuida, quem traz vidas ao mundo e quem luta pela saúde das mulheres, importa não deixar que estas datas se esgotem no calendário. Que sirvam, antes, como ponto de partida para um reconhecimento mais consistente, mais justo e mais duradouro.
Talvez esteja na altura de tornar visível o que nunca deixou de ser essencial!
Lúcia Leite, Presidente da Associação Sindical Portuguesa dos Enfermeiros (ASPE)

