Respirar é um gesto tão natural que raramente pensamos nele. Só quando nos falta percebemos que dele depende tudo. O cancro do pulmão e a doença pulmonar obstrutiva crónica (DPOC) lembram-nos que a saúde respiratória continua a ser um dos maiores desafios de saúde pública.
Em Portugal são diagnosticados, todos os anos, mais de 6.000 novos casos de cancro do pulmão, uma doença que continua a ser a principal causa de morte por cancro, responsável por cerca de 5.000 óbitos anuais. A DPOC afeta aproximadamente 14% da população com mais de 40 anos e estima-se que mais de metade dos doentes desconheça que tem a doença. São milhares de pessoas e famílias confrontadas com um diagnóstico que muitas vezes poderia ter chegado mais cedo.
O tabaco continua a ser responsável por cerca de 85% dos casos de cancro do pulmão. Prevenir não é culpabilizar quem fuma. É evitar que os mais jovens iniciem esse consumo, apoiar eficazmente quem quer deixar de fumar, promover ambientes mais saudáveis e reforçar a literacia em saúde.
Também é essencial reconhecer precocemente os sinais de alerta. Tosse persistente, falta de ar, expetoração com sangue, perda de peso inexplicada ou limitação progressiva do esforço nunca devem ser desvalorizadas. Um diagnóstico atempado aumenta as possibilidades de tratamento e pode fazer toda a diferença no prognóstico e na qualidade de vida.
A ciência abriu novas perspetivas, da cirurgia à radioterapia, da imunoterapia às terapêuticas dirigidas. Mas a inovação só cumpre verdadeiramente a sua missão quando chega a todos os doentes em tempo útil, independentemente do local onde vivem ou da sua condição económica.
Respirar esperança exige prevenção, diagnóstico precoce, acesso equitativo aos cuidados e uma medicina que nunca perca de vista aquilo que lhe dá sentido. Antes do diagnóstico existe sempre uma pessoa. E cuidar dessa pessoa, com competência, proximidade e humanismo, continuará a ser a missão maior da medicina.
Carlos Cortes, Bastonário da Ordem dos Médicos

