: 31 de Julho, 2026 Redação:: Comentários: 0

Os grandes desafios da próxima década já não permitem que a ciência se limite a diagnosticar problemas. Perante as alterações climáticas, a perda de biodiversidade, a degradação dos solos, a escassez de água e as desigualdades territoriais, é urgente transformar conhecimento em decisões, e decisões em resultados. É neste espaço, entre investigação, políticas públicas e ação no terreno, que o CHANGE quer afirmar a sua diferença.

O Laboratório Associado CHANGE — Instituto para as Alterações Globais e Sustentabilidade reúne o MED – Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento, o CE3C – Centro de Ecologia, Evolução e Alterações Ambientais e o CENSE – Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade. Mais do que a soma de três centros de investigação, o CHANGE funciona como uma plataforma interdisciplinar que aproxima ciência, governação e sociedade para conceber, testar e avaliar soluções orientadas pelo interesse público. A sua missão é identificar soluções de política pública e de governação baseadas na ciência, contribuindo para uma economia mais sustentável, justa e eficiente.

Para isso, combina investigação, avaliação de políticas e transferência de conhecimento, afirmando uma voz científica independente ao serviço do interesse público.

O seu principal fator diferenciador está na capacidade de trabalhar em contexto real. A presença no Alentejo, Algarve, Lisboa e Açores, as herdades experimentais da Mitra e da Ribeira Abaixo, as plataformas ecológicas de longo prazo, os laboratórios vivos e as infraestruturas de observação e monitorização permitem compreender a diversidade dos territórios e adaptar as soluções às suas condições ecológicas, económicas e sociais. Esta rede inclui laboratórios tecnológicos e de monitorização avançada, plataformas ecológicas de longo prazo e espaços experimentais onde é possível observar tendências, testar respostas e acompanhar resultados. A proximidade a comunidades, empresas, produtores e entidades públicas permite que a investigação parta de problemas concretos e regresse ao território sob a forma de soluções aplicáveis.

Ecofisiologia Vegetal (CE3C )

Esta base territorial sustenta cinco prioridades interdependentes: proteger a biodiversidade e restaurar ecossistemas; tornar os sistemas alimentares e florestais mais sustentáveis e resilientes; regenerar recursos essenciais como a água, o solo e o ar; promover uma economia circular e neutra em carbono; e reforçar a coesão territorial, reduzindo desigualdades e vulnerabilidades. Em todas estas áreas, a ambição é comum: produzir conhecimento útil, colocá-lo à prova e fazê-lo chegar a quem decide e a quem atua. A amplitude científica do CHANGE – da genómica aos modelos climáticos, da produção agrícola e florestal à biotecnologia, da microbiologia ao funcionamento dos ecossistemas e da pobreza energética à análise de políticas públicas – ajuda a evitar respostas fragmentadas para problemas profundamente interligados.

CHANGE em síntese · 3 centros de I&D· presença em 4 regiões · 5 linhas temáticas · ciência orientada para políticas públicas e impacto no território

Do território às políticas: projetos com impacto transformador

O Montado Living Lab exprime esta forma de fazer ciência. Acreditado pela rede europeia de Laboratórios Vivos (ENoLL), reúne cerca de 40 proprietários, associações, empresas, entidades públicas e investigadores para testar soluções que conciliam a viabilidade económica e a conservação de um ecossistema que perde, em média, entre 3 000 e 5 000 hectares por ano. A Gestão do Montado por Resultados, integrada no PEPAC – Plano Estratégico da Política Agrícola Comum, traduz esta abordagem num modelo de apoio público associado a resultados ecológicos concretos. Mais do que um projeto de investigação, o laboratório vivo cria um espaço continuado de aprendizagem entre quem produz conhecimento e quem gere diariamente o território. As soluções são discutidas, testadas e ajustadas com os atores locais, permitindo avaliar em simultâneo os efeitos ecológicos, económicos e sociais e criar referências transferíveis para outros sistemas agroflorestais mediterrânicos.

O Solo & Água 2030, financiado pelo PLANAPP – Centro de Planeamento e Avaliação de Políticas Públicas, desenvolveu no Alentejo Central um projeto piloto para a regeneração de solos agrícolas e agroflorestais e apresentou propostas para uma governação da água mais integrada, com reforço das Administrações de Região Hidrográfica, monitorização eficaz e maior capacidade de coordenação nacional.

Cardo-das-lagoas – Eryngium corniculatum(Carla Pinto-Cruz)

O trabalho produziu conhecimento e recomendações relevantes para o debate em torno da Estratégia Nacional para a Gestão da Água – “Água que Une”. Na componente dos solos, o projeto articulou conhecimento científico, experiência dos agricultores e prioridades da administração, procurando definir práticas adaptadas à região. Na água, evidenciou a necessidade de melhorar a informação, reforçar a capacidade técnica das entidades responsáveis e aproximar a governação das realidades de cada região hidrográfica.

Na conservação da biodiversidade, o CHANGE participa nos trabalhos do Plano Nacional de Restauro da Natureza e mobiliza uma ampla comunidade científica através da Rede de Conhecimento para o Restauro da Natureza, com mais de 200 membros, e do Think Tank Nature+. O envolvimento do CHANGE na organização, em 2027, da Conferência Mundial de Restauro Ecológico reforça a projeção internacional desta capacidade de articulação entre conhecimento, políticas e ação. Esta participação aproxima os compromissos europeus das condições ecológicas nacionais e apoia a definição de prioridades, indicadores e medidas de restauro. Ao reunir especialistas de diferentes instituições, a rede facilita a utilização de dados sobre habitats e espécies e cria condições para acompanhar e avaliar as decisões ao longo do tempo.

Na energia e no clima, o Fórum Solar Fotovoltaico, realizado em articulação com a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional Alentejo e a Universidade de Évora, defendeu que a expansão das renováveis deve privilegiar áreas artificializadas e degradadas, soluções descentralizadas e projetos agrovoltaicos bem enquadrados, evitando conflitos desnecessários com a biodiversidade. Investigadores do CHANGE contribuíram também para o Roteiro para a Neutralidade Carbónica e para o Plano Nacional de Energia e Clima. Esta orientação procura compatibilizar a rapidez da transição energética com a proteção do território. O desafio não é apenas instalar mais capacidade renovável, mas escolher localizações, tecnologias e modelos de participação que reduzam impactos, evitem áreas sensíveis e distribuam benefícios pelas comunidades.

As parcerias ampliam este impacto. A colaboração com o Laboratório Associado TERRA deu origem à conferência “Science-Based Policy Making: Building a Better Future”, centrada no solo e agricultura, restauro da natureza, usos do território, “Uma Só Saúde” (One Health) e resiliência climática e energética. No âmbito do processo participativo da AI2, realizou-se em Évora, o primeiro workshop descentralizado sobre futuras prioridades de investigação e inovação, organizado e moderado por investigadores do CHANGE, que reuniu academia, empresas, administração e sociedade civil, aproximando prioridades nacionais das necessidades regionais, e que sendo o primeiro no país, serviu de ensaio para os restantes.

A dimensão internacional não é um fim em si mesmo: serve para trazer conhecimento global para os territórios portugueses e levar a experiência mediterrânica aos fóruns onde se definem políticas. A participação de investigadores do CHANGE na 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP30), no Congresso Mundial de Conservação da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e no Conselho Consultivo Científico das Academias Europeias (EASAC), na missão espacial EDGE da NASA e na preparação da 3ª Conferência dos Oceanos das Nações Unidas ilustra esta circulação de conhecimento entre escalas.

Uma política sustentável tem de ser também uma política sustentada: por evidência, participação, avaliação e transparência.

Comunidade de Energia Renovável, Antigo Lagar da Quinta de São Vicente (CENSE )

Prioridades para a próxima década: do conhecimento à transformação

Laboratório de Microbiologia (MED )

Reduzir o fosso entre o tempo da ciência e o tempo da decisão é um dos principais desafios para o CHANGE. O Laboratório quer consolidar-se como uma interface permanente entre investigadores, administração pública, empresas, e sociedade civil, com mecanismos estáveis de aconselhamento, sistemas partilhados de informação e instrumentos que permitam acompanhar a execução e os resultados das políticas. A ciência deve chegar mais cedo às decisões — e permanecer depois para avaliar o que funcionou. Para isso, não basta apresentar recomendações no final dos projetos: é necessário manter relações continuadas com os decisores, disponibilizar dados em formatos utilizáveis e definir indicadores que permitam distinguir intenções de resultados. A avaliação independente será essencial para corrigir medidas que não produzam os efeitos esperados.

Tertúlias do Montado (MED )

Outra prioridade fundamental é responder de forma integrada às crises climática e da biodiversidade. Isso exige regenerar sistemas agrícolas, florestais e alimentares, conciliando produção, viabilidade económica, conservação da natureza e resiliência a secas, ondas de calor e incêndios. Exige também aplicar a Lei do Restauro da Natureza com instrumentos ajustados aos ecossistemas mediterrânicos e testar soluções no próprio território, antes de as generalizar. Esta integração implica reconhecer que a segurança alimentar, a saúde do solo, a disponibilidade de água, a prevenção de incêndios e a conservação da biodiversidade não podem ser tratadas separadamente. O aumento das secas e ondas de calor exige sistemas produtivos diversificados, eficientes no uso dos recursos e, em particular, da água e capazes de manter funções ecológicas.

É igualmente necessário assegurar uma transição energética e circular rápida, mas ambientalmente responsável e socialmente justa. A descarbonização não pode limitar-se a acrescentar infraestruturas: deve reduzir o consumo de energia e materiais, acelerar a produção renovável em áreas de menor impacto, promover a descentralização e garantir uma distribuição equilibrada dos custos e benefícios. Neste domínio, o CHANGE deverá contribuir para orientar a expansão solar para coberturas, espaços urbanizados, infraestruturas e solos degradados, sem excluir soluções agrovoltaicas devidamente avaliadas. A economia circular exige prevenir resíduos, prolongar a vida dos produtos, recuperar materiais e nutrientes e reduzir a dependência de recursos externos.

Projeto FoSaMed-Enhancing Food Safety in the Mediterranean (MED )
Herdade da Ribeira Abaixo (CE3C )

O reforço da coesão territorial e a abordagem de “Uma Só Saúde” (One Health), deverá assumir um papel central, reconhecendo a interdependência entre a saúde humana, animal e dos ecossistemas. Isso implica capacitar autarquias e comunidades, mobilizar ciência cidadã e utilizar dados de observação da Terra, tecnologias LiDAR e monitorização ambiental para prever riscos, acompanhar habitats, apoiar a prevenção de incêndios e orientar investimentos públicos mais eficazes.

mporta ainda transformar os territórios em espaços permanentes de inovação e participação. Isso significa reforçar as capacidades de autarquias e comunidades, apoiar laboratórios vivos e outras infraestruturas de inovação aberta, valorizar o património natural, cultural e paisagístico e criar oportunidades em regiões rurais e periféricas. A participação deve começar na definição dos problemas, ajudando a antecipar conflitos e a desenhar modelos de governação e de partilha de benefícios mais equilibrados.

A ambição para a próxima década é clara: num cenário geopolítico cada vez mais complexo e instável, o CHANGE assume o desafio de colocar a ciência ao serviço do interesse público, contribuindo para políticas mais justas, mais sustentáveis e mais eficazes na resposta aos desafios atuais e futuros da sociedade.

LA/P/0121/2020

DOI 10.54499/LA/P/0121/2020