: 31 de Julho, 2026 Redação:: Comentários: 0

Por ocasião dos 25 anos do CESAM — Centro de Estudos do Ambiente e do Mar, Unidade de Investigação da Universidade de Aveiro, com o estatuto de Laboratório Associado —, o seu Diretor, Amadeu Soares, responde às questões da Mais Magazine sobre o papel da ciência na resposta aos grandes desafios ambientais e marinhos.

Organização científica do CESAM e abordagem “Uma Só Saúde” em conjunto com os principais indicadores de atividade e impacto

Qual é a missão do CESAM enquanto Laboratório Associado e de que forma o trabalho que desenvolvem contribui para o conhecimento científico com impacto real na sociedade?

O CESAM — Centro de Estudos do Ambiente e do Mar — é uma unidade de investigação da Universidade de Aveiro que este ano completa 25 anos. A nossa missão assenta na abordagem “Uma Só Saúde” (One Health), que reconhece que a saúde humana, a saúde animal e a saúde do ambiente são indissociáveis. Não se cuida das pessoas sem cuidar da água, do ar, do solo e do oceano que nos sustentam.

A partir daí, fazemos investigação transdisciplinar sobre os sistemas ambientais e marinhos — da atmosfera aos solos, dos rios e das águas de transição até ao mar profundo — combinando investigação fundamental, que gera conhecimento novo, com investigação aplicada, que devolve à sociedade soluções concretas.

O impacto mede-se de várias formas. Já ultrapassámos os 9000 artigos científicos e demos mais de 100 contributos para políticas públicas. Mas o impacto que mais valorizamos é o que chega às pessoas: a água mais limpa, o ar mais saudável, os ecossistemas que restauramos e a informação que damos a quem decide. É esse o espírito do nosso lema — “A Cuidar do Futuro”.

Ecossistemas costeiros e de transição: qualidade da água, habitats, aves migratórias e ensaios em mesocosmos

Que principais desafios científicos identificam hoje — alterações climáticas, perda de biodiversidade, pressão sobre os recursos — e como é que o CESAM procura dar-lhes resposta?

Vivemos uma tripla crise ambiental, e nenhuma das suas dimensões pode ser tratada isoladamente: as alterações climáticas, a perda de biodiversidade e a pressão sobre os recursos alimentam-se umas às outras.

Organizámos a nossa resposta em três linhas temáticas de investigação. A primeira, “Alterações Climáticas, Adaptação e Mitigação”, estuda como o clima está a mudar e como podemos travar e absorver esse impacto. A segunda, “Gestão Ambiental, Poluição e Modelação”, ocupa-se da qualidade do ar e da água e do destino dos poluentes. A terceira, “Sistemas Socioecológicos e Recursos”, olha para a forma como as sociedades usam a natureza de modo sustentável. Estas linhas apoiam-se em seis clusters de investigação, que vão do mar profundo e ecossistemas de transição à economia circular e à energia.

Dou exemplos concretos. Nas alterações climáticas, investigamos o “carbono azul” — a capacidade dos sapais e das pradarias marinhas para capturarem carbono, muito acima das florestas terrestres. Na poluição, seguimos o rasto de poluentes emergentes os rios e estuários, usando mesocosmos, que são réplicas controladas dos ecossistemas reais. Na biodiversidade, protegemos aves migratórias e restauramos habitats-chave da Ria de Aveiro. A ciência que fazemos serve para antecipar riscos e propor soluções, não apenas para os descrever.

Elysia viridis e processo de retenção de cloroplastos funcionais

Pode destacar projetos, descobertas ou desenvolvimentos recentes com impacto relevante, em Portugal e internacionalmente?

Esse é um risco muito grande, pois não me faltam exemplos. Assumindo esse risco, no projeto europeu LIFE SeagrassRIAwild, que coordenamos, estamos a restaurar pradarias de ervas marinhas na Ria de Aveiro — um trabalho que já levámos às escolas e a encontros europeus. Investigadoras do CESAM contribuíram este ano para as primeiras recomendações europeias para o restauro de pradarias marinhas, ou seja, ciência portuguesa a moldar orientações da União Europeia.

Coordenamos dois projetos-farol das Missões da União Europeia. Na área dos estuários e das zonas costeiras, o A-AAGORA (Atlantic-Arctic Agora) restaura ecossistemas marinhos e costeiros e reforça a resiliência climática, tendo a Ria de Aveiro como um dos seus laboratórios vivos. Na área dos solos, o CURIOSOIL promove a literacia do solo junto de escolas, cidadãos e decisores. São projetos onde Portugal não participa apenas: lidera.

Um marco de que muito nos orgulhamos é o financiamento do Conselho Europeu de Investigação (ERC) ao projeto KleptoSlug, da investigadora Sónia Cruz, que investiga a capacidade de certas lesmas-do-mar “roubarem” cloroplastos funcionais das algas e fazerem fotossíntese como se fossem plantas. As bolsas do ERC são das mais competitivas da Europa e um selo de ciência de fronteira.

Posso apontar muitos outros projetos, como o PARC-Parceria Europeia para a Avaliação dos Riscos dos Produtos Químicos, cofinanciado pelo programa Horizonte Europa, que junta mais de 200 parceiros europeus de topo, incluindo uma equipa de investigadores do CESAM, contribuindo, entre outras, para a criação de uma plataforma digital europeia aberta a profissionais para partilha de dados regulatórios e novas metodologias de análise. Ou outros projetos na área da atmosfera, onde recentemente tivemos um artigo publicado na prestigiada revista Nature, ou nas áreas dos solos, energia, agricultura e florestas.

No mar profundo, que representa mais de 98% da nossa Zona Económica Exclusiva e continua largamente por conhecer, mas em que a nossa atividade vai para além da nossa ZEE; por exemplo, descobrimos florestas de coral negro e jardins de gorgónias ao largo de Cabo Verde — verdadeiros pontos quentes de biodiversidade (“hotspots”). E na bioeconomia marinha desenvolvemos métodos de rastreabilidade, transformamos peles de peixe e cascas de crustáceos, normalmente resíduos, em materiais valiosos para a medicina e a agricultura.

Ecossistema de coral de água fria observado pelo ROV a 1405 m de profundidade

Que vantagens traz o estatuto de Laboratório Associado, atribuído pela FCT, para a investigação, para a atração de talento e para a capacidade científica nacional?

O estatuto de Laboratório Associado, que o CESAM detém desde 2005, é um selo de confiança do Estado português. Significa que o CESAM é reconhecido como parceiro estratégico na resposta a desafios nacionais.

Este estatuto traz responsabilidades particulares enquanto Unidade de Investigação, com o dever de contribuir para uma melhor definição das políticas, e também vantagens decisivas, no mix do financiamento plurianual como UI e financiamento como LA. Primeiro, dá alguma estabilidade: um financiamento plurianual que, ainda que reduzido e obrigatoriamente complementado por financiamentos via projetos competitivos ou prestações de serviços, contribui para planear a investigação a médio e longo prazo, algo essencial em ciência ambiental, onde os processos se medem em anos e décadas. Segundo, é um íman para o talento: jovens investigadores, em Portugal e no estrangeiro, querem trabalhar num centro de excelência com infraestruturas de ponta. Terceiro, quando bem mobilizado pelas autoridades e organismos oficiais, o estatuto confere-nos uma voz institucional junto de quem decide: quando um Laboratório Associado contribui, com a sua ciência de qualidade, sobre um problema da sua área, essa palavra deve ser tida em consideração.

No fundo, o estatuto transforma boa ciência individual em capacidade científica nacional ao serviço do país, primeiro, e da comunidade internacional.

Valorização de subprodutos marinhos e biomassa florestal residual em biomateriais e biochar

De que forma a abordagem interdisciplinar do CESAM potencia respostas mais completas aos desafios do ambiente, do oceano e da sustentabilidade?

Os problemas ambientais reais não respeitam as fronteiras das disciplinas académicas. Uma inundação, um incêndio ou um episódio de poluição envolvem simultaneamente química, biologia, física, engenharia, economia e ciências sociais. Se cada especialista olhar apenas para o seu pedaço, perde-se o todo.

A força do CESAM está precisamente em juntar, à mesma mesa, biólogos, químicos, físicos, oceanógrafos, engenheiros do ambiente, planeadores do território, geólogos, modeladores e cientistas sociais. É isso que a abordagem “Uma Só Saúde” nos exige e que a nossa organização em linhas e clusters torna possível.

Um exemplo: para restaurar uma pradaria marinha não basta saber a biologia da planta. É preciso modelar as correntes e os sedimentos, avaliar a poluição, calcular o carbono que a pradaria captura e envolver as comunidades locais. Só a interdisciplinaridade dá a resposta completa de que os decisores e os cidadãos precisam.

Como é que o CESAM contribui para a capacitação de jovens cientistas e para afirmar Portugal como polo de excelência na investigação ambiental e marinha?

Formar cientistas é, para nós, tão importante como fazer ciência. O CESAM já apoiou mais de 600 teses de doutoramento e integra mais de 400 membros, muitos deles jovens investigadores. Cada projeto é também uma escola: os estudantes aprendem no terreno, nos laboratórios e nas campanhas de mar ou de campo, lado a lado com investigadores seniores, por vezes junto com atores locais.

Levamos essa missão para fora das nossas paredes: sessões de ciência nas escolas, iniciativas como o “Aprender com o CESAM”, documentários vários que passam nas televisões, exposições abertas ao público. Queremos que os cidadãos, incluindo os mais jovens, percebam o que somos, o que fazemos e que também podem ser cientistas.

Ao mesmo tempo, ligamos os nossos jovens às grandes redes europeias — EuroMarine, EurOcean e a aliança da bioeconomia azul — e a projetos internacionais que coordenamos. É assim que Portugal se afirma: não como um país que apenas participa, mas como um país que lidera investigação ambiental e marinha.

Essa afirmação passa também por uma forte cooperação com a CPLP, no Brasil e em África, seja com países de língua portuguesa ou outros (por exemplo, no Gana). Em Moçambique, o projeto NUTRIMO desenvolve rações artesanais de tilápia com ingredientes locais, reforçando a segurança alimentar de comunidades rurais. Em Angola, trabalhamos na qualidade do ar, usando Luanda como caso de estudo, e na região da Corrente de Benguela, incluindo aquacultura comunitária, em articulação com o Ministério das Pescas e do Mar. E na Guiné-Bissau desenvolvemos projetos de conservação, com apoio da Fundação MAVA e do programa LIFE, a colaboração do Instituto de Biodiversidade e das áreas Protegidas da Guiné-Bissau, unindo ecologicamente ecossistemas da Guiné-Bissau (como os Bijagós) e zonas húmidas no Gana. É ciência portuguesa que forma investigadores locais e devolve soluções a quem mais precisa.

Modelação e Clima, áreas que requerem séries temporais longas de dados

Olhando para a próxima década, que áreas de investigação e tecnologias emergentes considera terem maior potencial de benefício para a sociedade?

Vejo várias fronteiras promissoras. A primeira é a exploração sustentável, que deve também passar por estritas medidas de conservação dos recursos vivos e não vivos, e o conhecimento do mar profundo — esse território imenso da nossa ZEE que ainda conhecemos tão pouco e que pode guardar soluções para a saúde e para os materiais do futuro. A segunda é a bioeconomia azul e a economia circular: transformar resíduos e recursos marinhos em produtos de alto valor, fechando ciclos em vez de gerar desperdício.

Em termos de tecnologias, aposto na fusão de dados ambientais com inteligência artificial e modelação avançada, que nos permitirá prever secas, cheias ou episódios de poluição com antecedência suficiente para agir. A biotecnologia e a genómica ambiental abrirão caminho a novos biomateriais e à biorremediação, bem como a árvores ou culturas resistentes às novas condições climatéricas. E o restauro ativo de ecossistemas — pradarias, sapais, florestas — será central para as soluções baseadas na natureza. O denominador comum é uma ciência que antecipa, previne e restaura, ao serviço do bem-estar das pessoas.

Um traço distintivo do CESAM é a ligação entre a ciência e as políticas públicas. De que forma o CESAM contribui para a formulação de políticas e para o apoio à decisão, em Portugal e além-fronteiras?

Esse é, para nós, um compromisso central: a ciência que fazemos não pode ficar fechada e circular apenas nas revistas científicas — tem de chegar a quem decide. Ao longo dos seus 25 anos, o CESAM deu mais de 100 contributos para políticas públicas, em Portugal, na Europa e no plano internacional; essa ponte entre o conhecimento e a decisão está inscrita na nossa missão.

O CESAM apoia políticas públicas nacionais e internacionais através de uma cadeia completa de transferência de conhecimento: gera dados, desenvolve métodos, valida indicadores, modela cenários, avalia riscos, produz recomendações, participa em órgãos consultivos e acompanha processos de decisão. A nossa contribuição não se limita à publicação científica. Estende-se à normalização técnica e harmonização metodológica, avaliação de risco, aconselhamento regulatório, ambiental e sanitário, gestão de recursos naturais, ordenamento costeiro e marinho, conservação da biodiversidade, adaptação climática, fitossanidade florestal, gestão pós-fogo, qualidade do ar, saúde ambiental, aquacultura sustentável, rastreabilidade, segurança alimentar, transição energética e bioeconomia circular.

O impacto do CESAM é particularmente relevante porque opera em múltiplas escalas: local, apoiando autarquias, regiões e atores territoriais; nacional, fornecendo evidência para entidades como APA, ICNF, DGPM, CCDR e administrações setoriais; europeia, através de projetos, parcerias e comités ligados à Comissão Europeia, ECHA, EFSA, JRC, CBE JU, FAIRMODE, COST Actions e programas de financiamento europeus; e global, através de processos ligados à OCDE, OMS, às Nações Unidas, World Ocean Assessment, IOC/UNESCO, BBNJ, Ocean Decade e policy briefs internacionais sobre oceano profundo, clima, riscos químicos e biodiversidade. Em todo o mundo, mais de 1500 documentos de normas e políticas públicas citam publicações do CESAM.

O nosso papel é traduzir a evidência em opções claras — não decidir por quem governa, mas dar-lhe o melhor conhecimento disponível que possa servir de base a políticas bem informadas.

Que mensagem gostaria de deixar ao grande público sobre o papel da ciência — e dos Laboratórios Associados — na construção de um país mais sustentável, competitivo e preparado para o futuro?

Que a ciência não é um luxo distante, nem uma despesa inútil, mas um investimento, muitas vezes de longo prazo, na qualidade do dia a dia de todos. Está na água que bebemos, no ar que respiramos, na comida que temos na mesa e na segurança do Oceano, das nossas costas e florestas, na produtividade e sustentabilidade da nossa agricultura. Um país que investe em ciência é um país que se protege e que cria oportunidades.

Os Laboratórios Associados como o CESAM são a ponte entre o conhecimento e as decisões: traduzimos investigação em soluções e em conselhos úteis para quem governa e para quem vive. Ao fim de 25 anos, o nosso compromisso mantém-se intacto — colocar a melhor ciência ao serviço de um Portugal mais sustentável, mais competitivo e mais preparado.

Deixo um convite: olhem para a ciência como algo que vos pertence. É feita por pessoas, para pessoas, e o futuro do mar, dos solos, do ambiente e das interações entre os seus componentes — que influenciam o clima e têm impacto nas nossas vidas — é o futuro de todos nós. É por isso que estamos, todos os dias, “a cuidar do futuro”.