: 31 de Julho, 2026 Redação:: Comentários: 0

Há marcas que nascem para vender produtos e há projetos que nascem para contar histórias. A Cibinho pertence à segunda categoria. Inspirada nas raízes transmontanas e movida pela vontade de dar a conhecer o que de melhor se produz em Trás-os-Montes, a empresa familiar transforma tradição, autenticidade e qualidade em produtos com identidade própria. Nesta entrevista à Mais Magazine, Filipa Elias, CEO da Cibinho, fala sobre a origem do projeto, o Azeite Maria do Amparo, a importância de escolhas informadas por parte dos consumidores e a ambição de levar os sabores e a cultura transmontana cada vez mais longe.

A Cibinho nasceu de uma forte ligação à terra e às tradições transmontanas. Como surgiu o projeto e qual foi a principal motivação da família?

O nome da empresa anuncia a nossa raiz e o nosso propósito. Cibinho é um regionalismo transmontano que significa bocadinho/pedacinho e a nossa missão é mostrar ao mundo os pedacinhos de uma terra que não merece continuar esquecida. Queremos que as pessoas conheçam Trás-os-Montes e tudo o que de bom há e se faz por cá. Somos dois irmãos, Filipa e Guilherme, criados por uma transmontana e por um beirão que tiveram que sair das suas terras para vingar. Nós, os filhos, temos o privilégio de poder voltar às suas raízes e começámos por Trás-os-Montes. Cibinho, a empresa, é a forma que o capitalismo nos fornece para perseguirmos um propósito maior do que o “lucro”: trazer pessoas a Trás-os-Montes e levar bocadinhos de Trás-os-Montes às pessoas.

Um dos vossos produtos é o Azeite Maria do Amparo. Que história conta este Azeite?

Maria do Amparo é o nome da nossa mãe. Nunca ponderámos outra opção para o nome da marca. Para além do significado familiar, é um nome tão singular quanto o azeite que agora rotula. O Azeite de Trás-os-Montes vem da antiguidade e implantou-se como uma das principais fontes de riqueza da região no século XVI. É um azeite com História, mas que acompanha os tempos e a paisagem revela isso mesmo, oliveiras seculares entre plantações mais jovens. O nosso azeite é o resultado dessa simbiose de gerações de árvores enraizadas numa terra rigorosa, de elevada altitude e com temperaturas extremas, produzido através de mecanismos que conciliam os métodos tradicionais com a tecnologia dos nossos tempos.

Concretamente, o Azeite Maria do Amparo é produzido em Alfândega da Fé, sob a garantia da Denominação de Origem Protegida – “Azeite de Trás-os-Montes DOP”. É um azeite virgem extra que harmoniza quatro variedades de azeitona: Verdeal, Madural, Cobrançosa e Cordovil. O resultado é um azeite com personalidade, uma complexidade de doce, verde, amargo e picante que caracterizam o azeite transmontano e que o tornam inconfundível. Portanto, respondendo à pergunta, o nosso azeite conta a história de uma identidade.

Hoje os consumidores procuram cada vez mais conhecer a origem dos produtos que compram. Como é que a Cibinho consegue conciliar a tradição com a inovação e as exigências atuais de qualidade e sustentabilidade?

O nosso desejo é precisamente que os consumidores se preocupem cada vez mais e que sejam exigentes com a origem e a qualidade dos produtos que compram e com a sustentabilidade de todo o processo, da árvore à mesa. O que vemos, ainda, são escolhas motivadas pelo preço mais baixo e pela visibilidade da marca A ou B, muitas vezes em detrimento da qualidade do produto. As pessoas compram o que veem mais vezes e não procuram além disso. Isto não é nenhuma crítica, é a realidade de todos nós em relação a tudo o que não conhecemos e que, por isso, não temos a possibilidade, a curiosidade e a disponibilidade mental para questionar. No caso do azeite, muitos consumidores não leem os rótulos, não sabem o que estão a consumir. Na prateleira do supermercado, o que conta é a marca mais conhecida e o preço mais baixo, sem se aperceberem, por exemplo, se estão a comprar um azeite virgem extra de altíssima qualidade ou um azeite refinado. A diferença entre estes dois produtos é abismal: o azeite virgem extra é obtido exclusivamente a partir de azeitonas sãs e frescas, através de processos mecânicos, na primeira extração a frio, sem recurso a tratamentos químicos, com uma acidez igual ou inferior a 0,8% e que preserva os aromas, sabores e compostos naturais da azeitona. Já o azeite refinado resulta da refinação de azeites que apresentam defeitos e não podem ser consumidos sem destilação ou intervenção de químicos, que removem os defeitos mas também muitos dos compostos responsáveis pelo aroma, sabor e valor nutricional, pelo que, posteriormente, é misturado com uma proporção de azeite virgem ou virgem extra para recuperar parte das suas características organoléticas. A opção por um ou outro tem impacto na saúde e é muito importante que as pessoas escolham o que consomem de forma informada. Portugal produz azeite de excelência. Mas não vende só azeite de excelência. Há azeites de marcas portuguesas feitos com azeitonas importadas e as pessoas não sabem disso, acham que estão a consumir azeite português porque a marca A ou B é nacional. O selo DOP do azeite Maria do Amparo garante a origem das azeitonas, são portuguesas e de Trás-os-Montes. No que respeita à sustentabilidade, para além das práticas que vão sendo estudadas e implementadas, a qualidade do nosso produto já tem inerente um processo que respeita a pureza e a autenticidade da matéria-prima, que, por sua vez, provém de olivais tradicionais, de sequeiro, cultivados mais pelas gentes da terra do que por máquinas. Por tudo isto, terminamos a resposta como começámos: desejamos muito que as pessoas se preocupem e que sejam cada vez mais exigentes nas suas escolhas. Quanto a nós, orgulhamo-nos de ter um produto de excelência, com preços acessíveis e que comunica de forma clara e transparente.

Olhando para o futuro, quais são os principais objetivos da Cibinho? Há novos projetos, mercados ou desafios que vos entusiasmem particularmente?

O Azeite Maria do Amparo define-nos enquanto projeto empresarial. O mercado nacional é o nosso foco, mas têm surgido oportunidades além-fronteiras que nos suscitaram novos caminhos que não tínhamos planeado, por isso o futuro é uma curiosidade que nos entusiasma, não é uma preocupação. Mas Trás-os-Montes tem mais do que excelente azeite. Temos outros produtos regionais e o próximo, que apresentaremos brevemente, também tem um lugar à mesa.