Há um momento na vida de quase todas as famílias portuguesas em que alguém que amamos adoece gravemente. Nesse momento, o que mais se deseja não é apenas tratamento — é conforto, é dignidade, é não sofrer sozinho. Cuidados paliativos não são “desistir” de tratar, nem são o mesmo que cuidados continuados. São, antes, uma área de cuidados de saúde especializada, que pode e deve estar presente em qualquer lugar onde uma pessoa esteja a viver com uma doença grave, avançada ou ameaçadora da vida — seja no hospital, num centro de saúde, na comunidade ou numa unidade de cuidados continuados. O que os define não é o local, mas o tipo de cuidado: aliviar a dor e o sofrimento, cuidar do doente, da família e de quem cuida dele, e ajudar a viver com a maior qualidade possível até ao fim.
Em Portugal, todos os anos, mais de 160 mil pessoas precisam deste tipo de cuidados. Entre elas estão cerca de 8.000 crianças, muitas vezes esquecidas quando se fala nesta área. A grande maioria destas pessoas e das suas famílias não consegue aceder a estes cuidados a tempo. Por trás desta falta de resposta estão equipas dedicadas, com formação e vocação, mas em número claramente insuficiente para tudo o que é preciso fazer. Não faltam profissionais capazes — falta investimento para que cheguem a quem precisa.
Cuidar, em cuidados paliativos, é talvez a forma mais profunda de estar ao lado de alguém: do doente, de quem vive com ele toda a situação, de quem cuida, e também de quem presta cuidados a estes doentes. É por isso que a Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos continua, todos os dias, a lutar para que nenhum português fique sem este cuidado quando mais precisa dele.
Catarina Pazes, Presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos

