Num tempo marcado por rápidas transformações culturais, tecnológicas e sociais, mas que, por outro lado, parece impor uma homogeneidade de modelos e práticas, importa reconhecer que a Escola Católica não se constitui como uma realidade homogénea. Pelo contrário, afirma-se, desde sempre, como uma rica pluralidade de carismas, tradições pedagógicas e projetos educativos. Esta diversidade, longe de representar fragmentação, é expressão da fecundidade de uma mesma missão. Como recorda São Paulo, “há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo” (1 Cor 12,4). Na multiplicidade das suas expressões, a Escola Católica constitui um dom para a Igreja, um serviço à educação e um contributo valioso para a construção do bem comum.
A sua história e tradição, longe de representar algo ultrapassado, assume, cada vez mais, uma originalidade que reside na proposta de uma educação integral da pessoa. Numa época em que muitos discursos educativos tendem a reduzir a formação a competências, desempenhos ou resultados mensuráveis, a tradição educativa católica continua a afirmar uma visão antropológica na qual cada pessoa é reconhecida como única, irrepetível e portadora de uma dignidade que não depende da sua utilidade, rendimento ou condição social. Esta convicção, profundamente enraizada na tradição cristã e reiterada por documentos recentes do Magistério da Igreja, revela-se hoje surpreendentemente inovadora e atual.
A título de exemplo, o recente Simpósio A Educação e a Escola em Portugal: Traçar mapas educativos para uma Magnífica Humanização, realizado em Fátima, reafirmou, de forma vincada e convicta, a educação como, antes de tudo, uma tarefa de humanização. Aos vetores do Pacto Educativo Global, o Santo Padre acrescentou quatro referências particularmente significativas para a educação cristã: interioridade, unidade, amor e verdade. Num mundo frequentemente fragmentado, estas dimensões reenviam-nos para uma compreensão integral do ser humano e para a necessidade de educar não apenas para o saber, mas também para o sentido, para a relação e para a esperança.
Neste contexto, a Escola Católica enfrenta desafios particularmente exigentes. O primeiro é o da inteligência artificial. A questão decisiva já não é tecnológica, mas antropológica: que humanidade queremos preservar e promover numa era em que as máquinas reproduzem um número crescente de tarefas cognitivas? A Escola Católica é chamada a acolher a inovação sem ingenuidade nem medo, recordando que a consciência moral, a liberdade, a criatividade, a compaixão e a procura de sentido permanecem irredutivelmente humanas.
O segundo desafio é o crescimento dos identitarismos e das polarizações culturais. Perante a tentação de transformar a identidade em instrumento de exclusão, a Escola Católica propõe uma identidade sólida e dialogante. Sabe que só quem conhece as suas raízes é capaz de construir pontes e encontrar o outro sem receio.
No seu muito recente discurso à UNESCO, Leão XIV recordou que a cultura e a educação só cumprem plenamente a sua missão quando colocam a pessoa humana no centro e promovem o seu desenvolvimento integral. É também esta a vocação da Escola Católica. Por isso, perante os desafios do presente, continua a oferecer um contributo insubstituível: ajudar a formar pessoas livres, competentes, solidárias e espiritualmente conscientes, capazes de construir aquilo que o Papa designa como uma verdadeira e necessária “magnífica humanidade”. Não apenas para o futuro da Igreja ou da educação, mas para o futuro da própria sociedade.
Filipe Barbosa, Presidente da Mesa da Assembleia Geral da APEC

