O ensino superior enfrenta atualmente desafios particularmente exigentes, decorrentes das profundas transformações sociais, económicas, tecnológicas e demográficas que marcam as sociedades contemporâneas. Num contexto caracterizado pela crescente competitividade global, pela rápida evolução do conhecimento e pela necessidade de promover modelos de desenvolvimento mais sustentáveis, inclusivos e territorialmente equilibrados, as instituições de ensino superior assumem um papel absolutamente estratégico na qualificação das pessoas, na produção e transferência de conhecimento e na dinamização dos territórios.
Neste enquadramento ganha particular relevância a alteração de designação, consagrada no âmbito da revisão do RJIES, de Institutos Politécnicos para Universidades Politécnicas. Mais do que uma alteração de designação, esta mudança representa o reconhecimento da maturidade, da capacidade científica, pedagógica e institucional alcançada pelo subsistema politécnico, reforçando a sua afirmação nacional e internacional, reconhecendo equidade e igual valor aos dois subsistemas, enquanto se valoriza o papel determinante que os Politécnicos têm desempenhado no desenvolvimento regional, na coesão territorial e na qualificação da população portuguesa.
Neste cenário, importa reconhecer o contributo determinante que as (agora) Universidades Politécnicas têm tido em Portugal ao longo das últimas décadas. Desde logo, ao nível da democratização do acesso ao ensino superior, permitindo que milhares de estudantes, muitos deles oriundos de territórios do interior e de contextos socioeconómicos mais vulneráveis, pudessem aceder a formação superior de qualidade. Os Politécnicos afirma-ram-se como instituições de proximidade, fortemente ligadas às comunidades e às necessidades concretas dos territórios, desempenhando um papel decisivo na redução de assimetrias regionais e na promoção da igualdade de oportunidades.
Mas o impacto do ensino politécnico vai muito além da formação académica. A sua ligação ao tecido empresarial, às autarquias, às instituições sociais e às dinâmicas regionais transformou os Politécnicos em verdadeiros agentes de desenvolvimento e inovação territorial. Através da formação de recursos humanos qualificados, da transferência de conhecimento, da investigação aplicada e da capacitação das empresas e organizações, estas instituições têm contribuído de forma muito significativa para aumentar a competitividade das regiões, promover a inovação e reforçar a capacidade de resposta dos territórios aos desafios atuais.
mporta igualmente sublinhar o contributo do ensino superior politécnico para a qualificação da população portuguesa, aproximando Portugal da média da OCDE em termos de qualificações superiores. Este progresso, que constitui um dos mais importantes avanços estruturais das últimas décadas, não seria possível sem o papel desempenhado pelos Politécnicos na expansão da oferta formativa e na captação de novos públicos, incluindo estudantes adultos e públicos tradicionalmente afastados do ensino superior.
Contudo, os desafios persistem. O despovoamento do interior, a dificuldade de atração e fixação de jovens qualificados e a concentração de oportunidades nas áreas metropolitanas continuam a colocar em risco a coesão territorial e o desenvolvimento equilibrado do país. Por isso, torna-se essencial que o discurso político em torno da valorização do interior e da coesão territorial seja acompanhado pela concretização de políticas públicas concretas, efetivas, consistentes e duradouras. Políticas capazes de reforçar a atratividade dos territórios de menor densidade, apoiar as instituições de ensino superior aí localizadas, promover o investimento, criar oportunidades de emprego qualificado e garantir condições para que o talento possa não apenas formar-se nestas regiões, mas também nelas construir o seu futuro. Só assim será possível assegurar um país mais equilibrado, mais competitivo e verdadeiramente coeso.
Luís Loures, Presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP)

