Alberto de Pedro, Diretor-geral da GMV em Portugal, aborda o posicionamento da empresa nos grandes programas tecnológicos europeus e o contributo do país para áreas críticas como navegação por satélite, observação da Terra, cibersegurança e sistemas espaciais.
A GMV conta com mais de quatro décadas de atividade. Como descreveria, de forma sintética, a evolução da empresa e quais considera terem sido os marcos mais decisivos ao longo desse percurso?
A GMV nasceu em 1984, ligada ao meio universitário e ao setor espacial. Ao longo de quatro décadas, transformou-se num grupo tecnológico global, presente em 12 países, com cerca de 4 000 colaboradores e atividade em quase 80 mercados. O crescimento assentou na diversificação para áreas como Defesa, Transportes, Cibersegurança e Sistemas Críticos, mantendo sempre o Espaço como eixo identitário. Um dos marcos mais relevantes foi a expansão internacional, iniciada nos anos 2000, que permitiu à GMV ganhar escala e reforçar, posteriormente, a sua participação em grandes programas europeus. A adjudicação, em 2018, do contrato para o Ground Control Segment (GCS) do Galileo, representou um salto decisivo. Foi um projeto de enorme dimensão técnica e estratégica, que consolidou a GMV como um dos principais atores espaciais europeus.
Quais são hoje as principais áreas de atuação da GMV e qual é o papel de Portugal na estratégia global do grupo?
A GMV atua em domínios onde a tecnologia tem de responder a elevados requisitos de fiabilidade, segurança e continuidade operacional, como Espaço, Defesa, Cibersegurança, Aeronáutica e Sistemas Inteligentes de Transporte. Portugal assume um papel estratégico na atividade global da GMV desde 2005, reunindo atualmente mais de 130 profissionais altamente especializados. A equipa portuguesa lidera componentes-chave de programas europeus, como o Simulador de Radiofrequência para o Galileo e serviços de segurança no âmbito do programa de Observação da Terra da União Europeia, Copernicus. Contribui ainda para missões da ESA, sistemas VTS para autoridades portuárias, ferramentas como o DEMETER, desenvolvido para a EUROCONTROL, e serviços de cibersegurança para entidades públicas e financeiras. A GMV desenvolve também tecnologias de ciber-resiliência aplicadas à aviação, nomeadamente através de projetos como o CRUCIAL-HINTS, para a Agência Europeia de Defesa, focado na aviação militar. A empresa é ainda líder global em sistemas aviónicos de elevada criticidade para aeronaves e satélites.
Portugal tem vindo a afirmar-se no setor aeroespacial. Que papel pode desempenhar no contexto internacional e como se posiciona a GMV nesta evolução?
Desde a adesão à ESA, Portugal tem registado uma evolução significativa no setor aeroespacial, sobretudo na última década, impulsionada pelo crescimento das capacidades tecnológicas nacionais, pela crescente atratividade do setor e pela aposta estratégica do país no Espaço. Embora continue a ter uma dimensão relativamente modesta no contexto europeu, afirma-se cada vez mais como um ecossistema competitivo e atrativo pela qualidade técnica, inovação e colaboração das empresas, universidades e centros tecnológicos. A GMV procura contribuir ativamente para esta dinâmica, integrando competências nacionais em programas internacionais e reforçando o posicionamento de Portugal em áreas estratégicas da indústria espacial.

A GMV é reconhecida como um dos principais atores europeus no setor espacial. Quais são as suas áreas de atuação mais relevantes e os principais projetos em curso?
A GMV é o sexto maior grupo industrial espacial europeu, líder mundial em centros de controlo de satélites e também líder no desenvolvimento de sistemas críticos e na coordenação de missões espaciais. O GCS do Galileo é, provavelmente, um dos projetos mais emblemáticos, reforçando a soberania tecnológica europeia e evidenciando a liderança da GMV no desenvolvimento do sistema de navegação por satélite mais avançado do mundo. A este juntam-se projetos como o SouthPAN, a missão LEO-PNT (CELESTE), e serviços críticos como o PRS, associados a aplicações governamentais e de segurança. A partir de Portugal, a GMV fornece sistemas de autonomia embarcada para missões de ciência e exploração espacial, como ARIEL, HERA e RAMSES, e para o sistema de navegação lunar LUPIN. Lidera ainda a missão CREAM-IOD, dedicada à automatização da gestão de tráfego espacial, permitindo à prevenção autónoma de colisões de satélites. A empresa participa ainda noutros programas-bandeira europeus. No Copernicus, lidera serviços estratégicos na área da segurança; em SST/STM, assume um papel relevante na vigilância e gestão de tráfego espacial; e coordena o GOVSATCOM HUB, garantindo o acesso a comunicações seguras via satélite.
Num contexto geopolítico cada vez mais exigente, qual é o papel da indústria europeia — e da GMV em particular — na construção de autonomia estratégica?
A autonomia estratégica europeia depende da capacidade de desenvolver, operar e proteger tecnologias críticas no próprio território europeu, garantindo soberania operacional e autonomia de decisão. Neste contexto, a indústria desempenha um papel central: não basta aceder à tecnologia; é necessário dominar sistemas, operações, dados e cadeias de decisão. A GMV posiciona-se precisamente nesta interseção entre Espaço, Defesa e Cibersegurança, participando em programas como Galileo, GOVSATCOM/ IRIS², Copernicus, SST/STM e LEO-PNT, e desenvolvendo soluções alinhadas com as prioridades estratégicas europeias.
Quais serão as principais tendências que irão moldar os próximos 5 a 10 anos? Onde pretende a GMV posicionar-se nesse futuro?
A próxima década será marcada por avanços significativos em inteligência artificial, robótica autónoma, computação e segurança quântica, bem como por sistemas cada vez mais conectados e integrados. Assistiremos também a uma crescente convergência entre espaço, defesa, telecomunicações e serviços digitais, a ciclos de inovação mais rápidos, à crescente prestação de serviços e para a integração vertical das cadeias de fornecimento. Neste contexto, a GMV pretende afirmar-se como um parceiro tecnológico de referência em sistemas críticos, transformando inovação em capacidade operacional, autonomia e resiliência tecnológica.

