: 17 de Abril, 2026 Redação:: Comentários: 0

A Revista Mais Magazine foi a descoberta de Castanheira de Pera, um destino onde o turismo de natureza se entrelaça com o património industrial. Entre trilhos que seguem os antigos açudes e fábricas históricas, os visitantes são convidados a mergulhar numa experiência imersiva que une a beleza das paisagens à história viva das tradições locais.

De que forma a proteção da floresta e a valorização da paisagem contribuem para a estratégia global de turismo sustentável no concelho?

A construção de um destino turístico sustentável em Castanheira de Pera alicerça-se, inevitavelmente, na resiliência do território – começando pela sustentabilidade ambiental. Embora fenómenos extremos, como os grandes incêndios e as intempéries, sejam imprevisíveis, a proteção ativa da floresta e o ordenamento das zonas ecológicas das vertentes da serra e do leito da ribeira permitem mitigar os seus efeitos, transformando um território vulnerável num cenário potencialmente mais seguro – e, também, mais atrativo.

Valorizar a paisagem assume, assim, múltiplos significados e instrumentos operacionais na gestão, planeamento e ordenamento do território. Esta estratégia vai desde a conservação dos ecossistemas e da promoção da biodiversidade até ao aproveitamento turístico e socioeconómico dos recursos endógenos no espaço rural, em especial nas regiões de montanha. Só através deste compromisso da governação autárquica — equilibrando as dimensões ambiental, económica, social e cultural — é possível gerir forças, potencialmente conflituantes, e transformá-las em metas de desenvolvimento sustentado. Tal visão pressupõe que as políticas dirigidas à preservação das espécies autóctones devem coexistir com as mais-valias das fileiras produtivas do eucalipto e do pinheiro, convergentes na criação de um mosaico florestal em que a natureza é, efetivamente, a nossa maior riqueza. Além disso, proteger a floresta é proteger as aldeias, através de políticas que valorizam da diversificação da paisagem, seja pelas intervenções de limpeza de combustíveis nas faixas de proteção nos perímetros urbanos, seja pelo aumento da rendibilidade do minifúndio através da introdução de novas culturas agrícolas e florestais.

A regeneração do território promove novas valências funcionais que afirmar Castanheira de Pera como um concelho mais aprazível e seguro para viver, visitar e desfrutar…

Qual o impacto de iniciativas como o projeto “Castanheira Melhor Floresta” e os “Condomínios de Aldeia” na qualificação da paisagem e na experiência dos visitantes?

Castanheira de Pera tem em curso 48 projetos de Condomínio de Aldeia, com o objetivo de ser o primeiro concelho do país totalmente abrangido por este programa de proteção e resiliência, financiado pelo Fundo Ambiental. Tal como se observa noutras regiões do Centro e Norte, antes da intervenção nas faixas de gestão de 100 metros, o arbóreo produtivo — sobretudo o pinheiro e o eucalipto — crescia sobre as habitações, ocupando terrenos agrícolas abandonados e criando um risco crítico de incêndio. Hoje, as espécies autóctones (como o carvalho e o sobreiro), as culturas tradicionais (castanheiros e olivais) e outras espécies frutícolas (como o medronheiro) devolvem ao território a visibilidade de uma paisagem cuidada, mais resiliente e atrativa. As aldeias têm mais vida e, na capacidade do território para atrair mais pessoas, há que desenvolver novas políticas de estímulo, não só à captação de mais visitantes, como à fixação de novos residentes, desde os benefícios fiscais à reabilitação urbana aos incentivos à natalidade – tudo está interligado!

O projeto “Castanheira Melhor Floresta” – dinamizado pela Biond (Associação das Bioindústrias de Base Florestal) com o apoio da autarquia – reflete o bom entendimento pretendido entre o poder público e a iniciativa privada na gestão florestal. Neste caso, a intervenção incidiu sobre 1.500 hectares no sul do concelho, numa área predominante de eucalipto fustigada pelos incêndios de 2017. Os objetivos deste projeto incidiram, simultaneamente, na melhoria do potencial produtivo do minifúndio florestal e no aumento da resiliência ao fogo, através de operações de limpeza, desbaste, adubação. A pequena dimensão das parcelas, o fraco rendimento da terra e o abandono, num território envelhecido dito de baixa densidade demográfica, explicam a pertinência do projeto na adoção de boas práticas de gestão florestal, sem custos para os proprietários. Se somarmos o esforço financeiro da autarquia na continuada limpeza das faixas de combustível ao longo da rede viária municipal, transmitimos proatividade numa mensagem percebida pela população residente e por quem nos visita: hoje, dispomos de um território gerido de molde mais rigoroso e eficiente, onde a segurança de pessoas e bens e a sustentabilidade dos recursos são prioridades absolutas.

Em suma, a capacidade para atrair mais visitantes reflete-se na melhoria das condições para fixar novos residentes. O esforço da autarquia tem sido determinante e os resultados são já evidentes: estamos, finalmente, a conseguir reverter o acentuado declínio demográfico, que acompanhou o complexo processo de desindustrialização do concelho – até finais do século passado dependente do emprego na indústria têxtil –, na transição para a economia do novo milénio sustentada no turismo e nos serviços – na promoção da qualidade de vida. Esta nova dinâmica é visível, por exemplo, no aumento do número de alunos que frequentam o agrupamento de escolas e no crescimento das comunidades imigrantes. Aos que buscam novas oportunidades de trabalho, junta-se o crescente interesse – notadamente da comunidade anglo-saxónica – por estilos de vida que privilegiam a tranquilidade da natureza e a beleza das paisagens ensolaradas da Serra da Lousã.

Como é assegurada a articulação entre conservação ambiental — nomeadamente em áreas integradas na Rede Natura 2000 — e a dinamização da atividade turística?

Castanheira de Pera não tem parques naturais ou sequer monumentos nacionais. É a harmonia do conjunto, nesta moldura paisagística, que mais cativa o olhar do crescente número de turistas e visitantes – e, claro, constitui um capital natural que valoriza o investimento feito pelas famílias residentes e é extensível às habitações não permanentes.

Belo por natureza, cerca de 44,7% (ou 2.980 hectares) do território do concelho está integrado na Rede Natura 2000, por sua vez correspondente a cerca de 20% da área total do sítio da Serra da Lousã.

A conservação dos habitats e espécies, protegida por diretrizes europeias que visam a integridade das paisagens e da biodiversidade, é um ativo ambiental estratégico plenamente conciliável com o desenvolvimento sustentável do território. Deste modo, a dinamização do turismo de natureza foca-se em atividades ecossustentáveis de baixo impacto ambiental, harmonizando o pedestrianismo e os lazeres turísticos com o calendário de desportos de aventura, como o trail running e o BTT.

De que forma produtos turísticos como a Praia das Rocas e a Praia Fluvial do Poço Corga contribuem para a dinamização económica e para a promoção de um turismo sustentável?

A Praia das Rocas, com uma afluência que oscila entre as 80 e as 100 mil entradas nos meses de verão, é o grande motor de animação e dinamismo económico da Vila. Contudo, este fluxo, embora vital, apresenta o desafio de ser canalizado para outros pontos de interesse do concelho. Alargar o tempo de estadia e diversificar a oferta ao longo de todo o ano são, por isso, objetivos centrais da estratégia municipal, sustentados numa forte aposta no turismo de natureza e no turismo de eventos.

A Praia Fluvial do Poço Corga tem consolidado o seu prestígio com distinções que reforçam a estratégia de excelência do concelho. Recentemente eleita Praia Fluvial Revelação da Região Centro (Guia das Praias Fluviais 2024), a zona balnear foi também finalista do Prémio Nacional de Turismo 2025 nas categorias de Turismo Azul e Comunitário. Estes galardões, a par da classificação de Praia Acessível, vêm reconhecer o investimento executado no último mandato pela autarquia e atestam a qualidade das infraestruturas, elevando-a a um patamar de referência no turismo balnear da região. Além disso, o arbóreo monumental do carvalhal do Corga, que serve de moldura paisagística ao festival de música da «Feira da Juventude», e a construção do parque de arborismo, tornam o local aprazível todo o ano!

Como é promovida a diversificação da oferta turística ao longo do ano, nomeadamente através do pedestrianismo, eventos e iniciativas como festivais e rotas temáticas?

Esse é ponto-chave: mitigar o impacto da sazonalidade relacionada com o turismo – e em particular com a atividade balnear. Para tanto, é necessário alargar a oferta consolidada do turismo balnear aos lazeres, do outono à primavera, do turismo de natureza e à agenda do turismo de eventos. Esta visão materializa-se na valorização dos produtos endógenos – como a castanha, o azeite e o mel. Além da montra de outono da «Feira de Rua da Castanha, do Mel e do Artesanato», que já vai na 19ª edição, são os ingredientes principais do festival «Gastronomia em Movimento», realizado em abril.

Castanheira de Pera afirmou-se, nos últimos anos, como um destino de eleição para o atletismo de montanha e o trail running em Portugal, potenciado pelo desnível e pela tecnicidade dos trilhos da Serra da Lousã. Em novembro, o «Trilho do Neveiro» desafia os atletas a conquistar os cumes gémeos do Trevim (1.204m) e de Santo António da Neve (1.170m). Nas modalidades de trail longo (32 km) e curto (19 km), o percurso impõe uma exigência física à altura da façanha histórica dos antigos neveiros, culminando na chegada simbólica aos poços da neve. O percurso, nas distâncias de 32 km e 19 km, impõe uma exigência física à altura da façanha histórica dos antigos neveiros, culminando na chegada simbólica aos poços da neve. Estas serranias são também palco da prova intermunicipal «UTAX – Ultra Trail Aldeias do Xisto», cujos trilhos técnicos atraem a elite mundial da modalidade, sustentando a ambição da autarquia em criar um centro de alto rendimento nesta área desportiva.

As serranias do concelho são também ponto de passagem da prova intermunicipal do «UTAX – Ultra Trail Aldeias do Xisto», por entre os trilhos técnicos que ascendem do Coentral às cumeadas da Lousã, atraindo a elite nacional e internacional da modalidade. É objetivo da autarquia é criar um centro de alto rendimento nesta área desportiva.

A paleta de cores de outono emoldura ainda o «Walking Weekend – Festival de Caminhadas da Serra da Lousã», um programa de três dias que harmoniza o pedestrianismo com a gastronomia e o património cultural. Para os amantes das caminhadas ao longo de todo o ano, o programa «Doze Meses, Doze Caminhadas» oferece rotas temáticas que celebram as quatro estações — desde o espetáculo da ‘brama dos veados’ às refrescantes ‘caminhadas aquáticas’. Para os puristas do pedestrianismo, o concelho integra a rede homologada da Região de Leiria com quatro rotas de referência:

– PR1 – Rota dos Coentrais: 3,7 km (Coentral Grande)

– PR2 – Rota da Água e da Pedra + Passadiço das Quelhas: 15,4 km

– PR3 – Rota dos Neveiros: 3 km (Coentral – Santo António da Neve)

– PR4 – Rota Terras de Peralta: 2,6 km (Pera)

A mística das vertentes meridionais da serra, com as suas ravinas e curvas enganchadas, completa esta oferta multidisciplinar através dos desportos motorizados. Dos ralis aos passeios de todo-o-terreno, o território afirma-se como um palco de adrenalina e superação. Ciclismo, enduro e carrinhos de rolamentos, Castanheira de Pera é um destino vibrante e dinâmico em qualquer mês do ano.

De que forma o turismo de natureza se articula com o património industrial, incluindo projetos como a Rota dos Açudes e a valorização de unidades como a Albano Morgado S.A.?

As paisagens naturais transformam-se em paisagens culturais através dos bens patrimoniais que incorporam e das memórias que preservam a autenticidade dos lugares. Mais do que oferecer ‘postais ilustrados’, o nosso foco é proporcionar experiências imersivas que unam o contacto com a natureza à divulgação da história e das tradições locais.

Descendo o vale da Ribeira de Pera, dezenas de açudes aproveitavam a força motriz das quedas de água, alimentando moinhos e impulsionando o progresso fabril. Hoje, o manancial espraia-se nas ondas da Praia das Rocas. Daqui parte a Rota dos Açudes: um percurso linear que percorre a exuberância da galeria ripícola, recortada pelas ruínas de antigas fábricas, que fará desta rota — com inauguração prevista para o final deste ano — um dos mais belos trilhos de Portugal.

Para culminar esta jornada, propomos a visita à unidade fabril da Albano Morgado S.A., onde é possível conhecer o ciclo completo de transformação da lã — da cardação e fiação à tecelagem e tinturaria. É este convite à descoberta da nossa identidade que deixamos a quem nos visita.

Visite Castanheira de Pera.