: 26 de Junho, 2026 Redação:: Comentários: 0

Mãe antes de tudo, artista por herança e joalheira por vocação, Maria João Bahia transformou uma paixão silenciosa numa das carreiras mais marcantes da joalharia portuguesa. Ao longo de mais de quatro décadas, criou peças que contam histórias, conquistou clientes e personalidades de renome internacional e assinou obras icónicas como o troféu dos Globos de Ouro. Nesta conversa, revisita as origens da sua ligação à arte, fala dos desafios e conquistas de uma vida dedicada à criação e revela os novos projetos que continuam a dar forma ao seu universo de beleza, memória e emoção.

Para começarmos, quem é a Maria João Bahia, para além do universo profissional? E de que forma nasceu a sua ligação à Joalharia e às Artes?

Sou mãe antes de tudo. A família sempre foi a prioridade da minha vida e a minha maior realização. Os meus filhos cresceram dentro do meu universo criativo, acompanhando de perto o meu percurso, mas procurei sempre que os afetos viessem antes de qualquer conquista profissional. A minha ligação à Arte é uma herança que recebi do meu Pai. Hoje percebo que a infância foi o primeiro atelier da minha vida. Tudo o que vemos, sentimos e vivemos molda a nossa forma de criar e de olhar o mundo. A minha paixão pela joalharia nasceu naturalmente desse universo.

Embora a criatividade sempre tenha estado presente na sua vida, iniciou o seu percurso na área do Direito. O que a levou, mais tarde, a seguir definitivamente o caminho da Joalharia?

A joalharia era uma paixão escondida. O Direito foi uma descoberta interessante, mas quando a paixão é verdadeira, séria e honesta, acaba por encontrar o seu lugar. Hoje considero um privilégio poder trabalhar com as mãos e dedicar a minha vida àquilo que sempre sonhei fazer.

Depois de mais de quatro décadas dedicadas ao design e à criação artística, que balanço faz do seu percurso? Que momentos ou conquistas guarda como mais marcantes?

A vida é feita de desafios e conquistas. Nem sempre estamos no topo, e ainda bem, porque é isso que nos ensina a valorizar cada etapa. Sempre tive uma enorme dedicação ao meu trabalho e procurei construir o meu percurso com lealdade, rigor e consistência. Tive o privilégio de trabalhar com excelentes clientes, parceiros e colaboradores, muitos dos quais se tornaram amigos para a vida. Aprendi que uma marca não se constrói apenas com reconhecimento. Constrói-se com trabalho, identidade, dedicação e alma. Entre os projetos que mais me marcaram estão trabalhos realizados para Hubert Hermès, Jane Fonda, Papa Bento XVI, Globos de Ouro, Universidade Católica, Cotec e Grandes Escolhas, entre outros. É sempre uma honra criar peças que homenageiam o talento e a excelência dos outros.

Entre as várias peças icónicas que criou destaca-se o célebre Globo de Ouro. Como recebeu o convite para desenvolver esse troféu e em que se inspirou para o conceber?

Recebi o convite do Dr. Francisco Pinto Balsemão com enorme emoção e sentido de responsabilidade. Quis criar um símbolo que homenageasse o que de melhor existe em Portugal e procurei inspiração em elementos profundamente ligados à nossa identidade e à nossa história. O padrão dos Descobrimentos e a esfera armilar acabaram por ser referências fundamentais para a criação da peça.

O seu trabalho vai muito além da Joalharia e inclui também peças decorativas e objetos para a casa. O que mais a desafia ou entusiasma quando trabalha em universos tão distintos?

Para mim, os universos da Arte não são distintos, complementam-se. Sempre me fascinou a forma como os objetos podem transformar ambientes e criar emoções. Uma mesa bem posta, um objeto especial ou uma peça decorativa podem despertar memórias e tornar os momentos partilhados em família ou entre amigos ainda mais significativos. É essa ligação entre beleza, memória e vivência que procuro transportar para tudo aquilo que crio.

Muitas das suas peças parecem contar histórias e transmitir emoções. O que procura que as pessoas sintam quando usam uma criação sua?

Todas as minhas joias nascem de uma história. Gosto que quem usa uma peça minha se sinta especial, confiante e única. As joias têm a capacidade de acompanhar momentos importantes da vida e de atravessar gerações. ais do que um objeto, uma joia pode tornar-se uma memória, um símbolo de afeto ou uma herança emocional. Talvez seja por isso que continuamos a apaixonar-nos por elas.

Depois de uma carreira tão consolidada, que projetos ou sonhos gostaria de concretizar no futuro?

Continuo a acreditar que a criação não tem fim. Recentemente desenvolvi um novo conceito para apresentar o meu trabalho. Trata-se de um espaço privado onde joias, objetos em prata, arte e decoração convivem em perfeita harmonia. Por ser um espaço intimista, funciona por marcação e permite uma experiência mais próxima e personalizada. É um desafio novo, muito especial para mim, e que tenho vindo a construir com enorme entusiasmo. Chama-se JOIAS E OBJETOS INTIMISTAS.

Após tantos anos de carreira, o que mudou na forma como olha para a joalharia e para a criação?

Com o tempo passei a valorizar ainda mais a autenticidade e o significado das coisas. Continuo a gostar de criar peças belas, mas hoje interessa-me sobretudo aquilo que elas representam para quem as recebe. Acredito que as joias mais especiais são aquelas que guardam memórias, celebram momentos importantes e permanecem na história das famílias.

É essa visão que está na origem do conceito JOIAS E OBJETOS INTIMISTAS?

Sem dúvida. Este projeto nasceu da vontade de criar um espaço mais próximo, mais pessoal e mais humano. Um lugar onde as pessoas possam descobrir joias, objetos em prata, arte e decoração num ambiente tranquilo, pensado para ser vivido sem pressa. Mais do que apresentar peças, quero proporcionar uma experiência. Porque acredito que a verdadeira beleza está na emoção, na memória e nas histórias que cada objeto pode transportar.