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Para a casa ser secular ainda tem cinco anos pela frente, já o seu carismático anfitrião, Emílio Andrade pode afirmar com propriedade que conta já com uma centena de anos de vida. Uma esmagadora parte dela, à frente do restaurante que homenageia a sua mãe, aberto como uma singela adega de petiscos em 1926. Fique a conhecer nesta edição a longa viagem de Emílio Andrade e deste restaurante ao serviço da cozinha tradicional portuguesa há quase um século.


Não queríamos chegar ao fim de 2021 sem passar pela Adega da Tia Matilde e ver em ação o senhor Emílio Andrade que, no alto dos seus 100 anos continua a receber todos os clientes com o carinho e dedicação característicos. Emílio Andrade Júnior, filho de Matilde e Emílio Andrade, nasceu em Lisboa, no dia 2 de abril de 1921. Começou a trabalhar aos 12, para ajudar os pais na taberna que abriram em 1926 no Bairro do Rego, em Lisboa, a “Taberna do Emílio”. Depois, juntou-se-lhes Isabel, sua mulher, já falecida, que era excecionalmente dotada para a cozinha tradicional portuguesa e deu um contributo decisivo para transformar a tasca em restaurante, sob a designação de Adega Tia Matilde. Emílio passou todo o ser saber às filhas Matilde e Isabel que, com a colaboração do neto Jorge, prosseguem a tradição familiar com qualidade, profissionalismo e simpatia. A casa, que abriu em 1946 e cujo nome homenageia a mãe, continua a ser o seu local preferido para estar, depois de anos a servir de anfitrião às mais ilustres figuras do país. A mais assídua de todas foi Eusébio, o “Pantera Negra”, cuja mesa preferida continua a manter-se intacta por Emílio Andrade, um grande amigo e também um grande benfiquista, ou não fosse ele o sócio n.º1 do Benfica.


A pura gastronomia portuguesa

Aqui, os pratos tradicionais portugueses muito apetecíveis são os reis da mesa. Não admira: são feitos por mãos femininas experientes, cujo labor podemos observar na cozinha. Dá gosto ver e, mais ainda, saborear essas iguarias que compõem uma ementa extensa, genuinamente portuguesa. Aqui estamos na mais pura tradição da cozinha popular portuguesa. Dependendo do dia da semana, pode experimentar uma grande variedade de pratos, todos eles representativos da mais pura tradição da cozinha popular portuguesa. Nas entradas, o destaque vai para as tradicionais pataniscas, para os pastéis de bacalhau e para os peixinhos da horta, todos com frituras e sabores bem calibrados. A refeição pode ainda ser iniciada com os deliciosos carapaus de escabeche, a salada de polvo, amêijoas à Bulhão Pato, camarão tigre grelhado, presunto e lomba pata negra de bolota. Nos pratos de carne destacam-se o arroz de frango à Tia Matilde, porventura uma das melhores cabidelas de Lisboa e arredores.

O cabrito assado no forno, prato diário, o coelho no forno, que satisfaz duas pessoas, o pato corado com arroz, ou ainda a saborosa perdiz estufada com puré de castanhas e batata-palha, um prato de caça sazonal. Quanto ao peixe é imperioso relembrar que na Adega da Tia Matilde tem, por um lado, os pratos sazonais: a lampreia em arroz, que é de resto sempre das primeiras a chegar, mal entra janeiro, e das melhores, originária do Minho, e o sável frito com açorda de ovas, que em fevereiro e março faz as delícias dos amantes do bom garfo. Por outro lado, alguns pratos emblemáticos, como a caldeirada à Tia Matilde, com tamboril, choco, safio e eirós, a canja de garoupa com amêijoas e espinafres, a posta de peixe e os bivalves num caldo rico e perfumado, a garoupa no tacho com caldo de massinha, o bacalhau à Isabel, do tipo à Brás, embora mais desfeito e cremoso, com a batata em quadradinhos, o pargo assado no forno, a cabeça de peixe grelhada com azeite e alho, entre muitos outros para desafiar a gula. Sem esquecer a garrafeira abrangente, com alguns dos melhores vinhos, alguns de pequenos novos produtores. A doçaria é outra aposta ganha, de que são exemplos a tarte folhada de maçã, com a massa folhada estaladiça e o recheio suave, o arroz-doce, de aspeto e sabor caseiros, e a montanha-russa, com as natas tocadas pelo calor do forno sob um delicioso creme de ovos. Parece delicioso, certo? Nós não vamos perder a oportunidade de rumar até ao n. º77 da Rua da Beneficência e com(provar) tudo o que lhe dissemos.

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