: 23 de Outubro, 2026 Redação:: Comentários: 0

Com mais de duas décadas de experiência, Vasco Vieira, fundador do atelier Vasco Vieira Arquitectos, nasceu em Joanesburgo, na África do Sul, em 1969, e revelou desde cedo interesse pela arquitetura. Em entrevista à Mais Magazine, reflete sobre a evolução do luxo na habitação, a sustentabilidade e a importância de criar casas intemporais, adaptadas ao lugar e à identidade de quem as habita.

Ao longo de mais de 20 anos, o mercado imobiliário e o próprio conceito de luxo mudaram bastante. O que significa hoje, para si, uma casa de luxo? É ainda uma questão de dimensão e materiais ou está cada vez mais relacionada com conforto, privacidade, natureza e experiência?

Para mim, o verdadeiro luxo nunca esteve apenas na dimensão de uma casa ou nos materiais utilizados. Está sobretudo na qualidade dos espaços, no conforto, na privacidade e na forma como vivemos a casa. Uma casa de luxo deve proporcionar uma experiência de vida excecional, onde a arquitetura, a natureza e os espaços interiores funcionam em perfeita harmonia. O luxo está nos detalhes, na qualidade e, acima de tudo, na sensação de bem-estar que uma casa nos transmite.

A sua arquitetura procura uma relação muito forte entre o edifício e o lugar onde este se insere. Quando começa um novo projeto, o que observa primeiro: o terreno, a paisagem, a luz, o cliente ou a própria arquitetura que imagina?

Tudo começa com o lugar. A orientação solar, a topografia, a paisagem e a envolvente são fundamentais para definir o conceito de um projeto. Mas é igualmente importante conhecer o cliente, perceber a sua personalidade, as suas necessidades e a forma como pretende viver a casa. A arquitetura surge da combinação destes fatores. Não acredito em soluções iguais para terrenos e pessoas diferentes.

Costuma dizer que cada projeto deve refletir a “alma” do proprietário. Até que ponto um arquiteto deve impor a sua visão e até que ponto deve adaptar-se à personalidade e ao modo de vida de quem vai habitar o espaço?

Uma casa não deve ser apenas a expressão do arquiteto. Deve, acima de tudo, refletir quem a vai habitar. O nosso papel é interpretar aquilo que o cliente procura e transformar essas ideias numa solução arquitetónica equilibrada, funcional e com identidade. Naturalmente, temos a nossa linguagem e a nossa visão, mas acredito que os melhores projetos surgem quando existe confiança e uma boa relação entre o arquiteto e o cliente.

Atualmente, muitos clientes procuram casas que sejam também uma afirmação de estilo e estatuto. Na sua experiência, onde está a fronteira entre criar uma arquitetura com identidade e criar uma arquitetura demasiado condicionada pelas tendências?

As tendências são passageiras. A boa arquitetura deve resistir ao tempo. Procuro desenvolver projetos com uma identidade própria, onde a estética resulta de decisões arquitetónicas e não apenas daquilo que está na moda. Uma casa deve continuar a fazer sentido daqui a 20 ou 30 anos. Para mim, essa intemporalidade é uma das características mais importantes de um bom projeto.

O Algarve tornou-se um dos principais destinos internacionais de imobiliário de luxo. Como olha para esta transformação? A crescente procura por este território está a contribuir para uma arquitetura de maior qualidade ou existe o risco de se perder a identidade e a autenticidade da região?

O Algarve tem características únicas: o clima, a luz, a paisagem e a proximidade do mar. É natural que continue a atrair clientes de diferentes partes do mundo. Esta procura tem contribuído para elevar o nível de exigência e a qualidade dos projetos, o que considero positivo. No entanto, é fundamental respeitar o território e evitar uma arquitetura descontextualizada. Modernidade e identidade regional não são incompatíveis. O desafio está precisamente em encontrar esse equilíbrio.

A sustentabilidade já não é apenas uma tendência, mas uma exigência cada vez maior na arquitetura. Na prática, o que significa para si criar uma casa verdadeiramente sustentável — e onde termina a sustentabilidade e começa apenas o marketing?

A sustentabilidade começa nas decisões mais básicas de um projeto: a implantação da casa, a orientação solar, a ventilação natural, o isolamento e a escolha dos materiais. Antes de recorrer à tecnologia, devemos tirar partido daquilo que a própria arquitetura pode oferecer. Uma casa verdadeiramente sustentável deve ser eficiente, duradoura e confortável. Não basta instalar determinados equipamentos ou utilizar materiais considerados ecológicos. A sustentabilidade tem de fazer parte do projeto desde o início.

Depois de tantos anos e de tantos projetos, há alguma coisa que hoje faria de forma completamente diferente daquela que fazia quando começou o atelier? E o que é que continua exatamente igual na sua forma de pensar arquitetura?

A experiência dá-nos uma perspetiva diferente. Hoje existe uma maior consciência da importância de cada decisão, tanto ao nível do projeto como da sua execução. Ao longo dos anos, fomos evoluindo, incorporando novas tecnologias, materiais e formas de trabalhar. O que não mudou foi a vontade de criar arquitetura com identidade, de procurar soluções diferentes e de dar a cada projeto a atenção que merece.

Se imaginasse hoje o projeto que melhor representa aquilo que o Vasco Vieira Arquitectos quer ser daqui a 10 ou 20 anos, como seria essa arquitetura?

Seria uma arquitetura contemporânea, intemporal, integrada na paisagem e pensada ao detalhe. Uma casa onde a relação entre os espaços interiores e exteriores fosse natural, onde a luz tivesse um papel fundamental e onde o conforto e a qualidade fossem prioridades. Mais do que seguir uma tendência ou criar algo apenas visualmente impressionante, gostaria que os nossos projetos continuassem a distinguir-se pela sua identidade e pela forma como são vividos.