: 26 de Junho, 2026 Redação:: Comentários: 0

No ano em que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa assinala três décadas de existência, a primeira mulher a assumir a presidência da Confederação Empresarial da CPLP, Nelma Fernandes, defende uma nova etapa para a comunidade lusófona, assente na integração económica, na mobilidade e na criação de oportunidades para empresas, jovens e investidores. Em entrevista à Mais Magazine, a líder empresarial partilha a sua visão para uma CPLP mais influente e competitiva, destacando o papel estratégico da cooperação económica como motor de desenvolvimento, inovação e prosperidade para os mais de 300 milhões de cidadãos que partilham a língua portuguesa.

A CPLP celebra 30 anos de história, cooperação e ligação entre povos. Que balanço faz deste percurso e qual considera ser hoje o maior desafio da comunidade lusófona?

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa nasceu a 17 de julho de 1996 como um espaço multilateral de concertação entre países de diferentes continentes, todos unidos pela língua de Camões, com foco na cooperação de alguns pilares, o que, por si só, constituiu um feito diplomático importante. Mais tarde, com a entrada de Timor-Leste, em 2002, e da Guiné Equatorial, em 2014, demonstrou a sua capacidade de expansão e atratividade política. Os 30 anos da CPLP refletem a consolidação institucional da comunidade, a projeção internacional da língua portuguesa, a ampliação do espaço lusófono, o desenvolvimento da agenda de cooperação setorial, os avanços na mobilidade e uma nova visão estratégica, com enfoque na modernização, particularmente a partir de 2016. Um dos pontos altos ocorreu em 2021, com a presidência pro tempore de Angola, altura em que foi incorporado o quarto pilar, o económico. Ao longo de três décadas, a CPLP consolidou-se como uma comunidade política e linguística singular. O grande desafio da próxima etapa é transformar identidade em integração efetiva, cooperação com impacto e mobilidade real para os cidadãos, com reflexos concretos no seu quotidiano. O que vai afirmar ainda mais a CPLP na agenda global, e a tornar mais prioritária mesmo entre os nove Estados-membros, em comparação com outros blocos consolidados como o Mercosul, a União Europeia, a CEDEAO, a SADC ou a ASEAN, é objetivamente a vertente económica. A língua é um ativo fundamental, pois é singular o facto de nove países, em quatro continentes, partilharem o mesmo idioma. No entanto, o fator que consolidar os interesses a outro patamar será a economia. A balança comercial, ainda pouco expressiva, é a chave e elemento decisivo para essa priorização.

Nelma Fernandes, Presidente da Confederação Empresarial da CPLP

O espaço lusófono reúne diferentes continentes, culturas e mercados. Como transformar essa diversidade numa verdadeira vantagem competitiva global?

A diversidade da CPLP em quatro continentes, culturas e mercados económicos distintos, que muitos consideram um entrave, é precisamente onde reside a nossa maior mais-valia e oportunidade. A diversidade da CPLP não é um obstáculo a gerir, mas sim um grande ativo a organizar. A força da CPLP está na combinação de quatro continentes, perfis económicos distintos e uma língua comum que facilita a confiança, a negociação e a circulação de conhecimento. Esta realidade cria acesso simultâneo a mercados do Atlântico, de África, da América do Sul, da Europa e da Ásia, algo absolutamente único entre blocos multilaterais. Outro aspeto relevante é a dimensão jovem de vários países da comunidade, que amplia o potencial de consumo, inovação e digitalização. A transformação deste potencial em vantagens reais passa por utilizar a língua como infraestrutura económica. Para isso, é essencial:

  • Construir cadeias de valor na CPLP. Para além de promover trocas comerciais, devemos ligar produção, logística, financiamento e distribuição entre os países-membros, especialmente nos setores da agroindústria, energia, turismo e economia digital;
  • Assegurar mobilidade efetiva. É crucial aproximar empresários, estudantes, técnicos, docentes e investidores. Sem mobilidade real, a comunidade perde competitividade;
  • Criar a marca CPLP para o mundo. A diversidade pode ser convertida numa marca internacional forte para vários setores de atividade;
  • Focar nos setores do futuro. A juventude conectada dos países favorece a economia digital, a formação técnica, as startups e os serviços baseados na partilha de conhecimento;
  • Organizar e implementar uma diplomacia económica conjunta. A CPLP pode falar com mais peso nos fóruns globais se alinhar mensagens sobre comércio, energia, clima, oceanos, novas rotas comerciais e desenvolvimento sustentável.

Quando vamos contar com uma CPLP mais influente, relevante e em que setores apostar?

Uma CPLP mais influente vai depender da capacidade de transformar o potencial em resultados concretos. Quando o Brasil procura preservar a sua liderança como um dos principais celeiros agrícolas globais, torna-se essencial adotar uma estratégia sustentável de longo prazo. A intensificação produtiva, aliada aos riscos de degradação dos solos e ao uso excessivo de fertilizantes, exige novas abordagens baseadas na inovação, na tecnologia e na cooperação internacional. Neste contexto, parcerias estruturadas com países como Angola e Moçambique podem assumir um papel estratégico. Não se trata de uma extensão territorial, mas sim da criação de plataformas de cooperação agrícola, nas quais o Brasil aporta conhecimento técnico, inovação e capacidade produtiva, enquanto estes países beneficiam de investimento, transferência de tecnologia, capacitação e geração de emprego. Trata-se de uma relação de valor partilhado, assente numa base linguística e cultural comum, que reforça a confiança e acelera resultados. O mesmo pode acontecer no setor do café, onde podem ser incluídos São Tomé e Príncipe, a Guiné Equatorial e Timor-Leste. Se a aposta for na castanha de caju, a Guiné-Bissau surge como parceiro natural.

Paralelamente, a consolidação de uma marca económica conjunta da CPLP pode amplificar significativamente o posicionamento internacional dos seus produtos. Ao agregar escala, diversidade e qualidade sob uma identidade comum, os países-membros ganham maior poder de negociação e visibilidade nos mercados globais. Importa igualmente destacar que os países da CPLP dispõem, em conjunto, de recursos estratégicos relevantes, desde minerais críticos essenciais para as tecnologias digitais e para a transição energética, até ao potencial energético, incluindo petróleo e gás. Uma articulação mais coordenada destas cadeias de valor pode posicionar a comunidade como um ator relevante nas novas dinâmicas globais, principalmente se Portugal entender a ponte natural que pode articular entre a CPLP e a União Europeia. Cabo Verde, por exemplo, tem feito uma forte aposta na tecnologia. Adicionalmente, o desenvolvimento de um pacote turístico integrado, onde é valorizada a diversidade cultural, natural e histórica do espaço CPLP, iria contribuir certamente para o aumento do PIB dos países-membros, promovendo fluxos turísticos interligados e uma maior permanência média dos visitantes. Com visão estratégica, coordenação política e investimento direcionado, a CPLP tem o potencial para se afirmar como um bloco económico mais coeso, competitivo e influente à escala mundial.

Foi a primeira mulher a assumir a presidência da Confederação Empresarial da CPLP. Que significado teve esse momento no seu percurso pessoal e profissional?

Desde logo, representou uma responsabilidade enorme. Trabalhar e apoiar o desenvolvimento socioeconómico dentro de uma comunidade onde a consciência do seu verdadeiro potencial ainda não é totalmente clara e prioritária, quando comparada com outras comunidades económicas, é um desafio. No entanto, quanto mais difícil é o caminho, mais satisfatório se torna o resultado. O importante é manter o foco. Divido o significado do momento em dois planos. No plano pessoal, representa muita resiliência e o reconhecimento de um percurso feito de competência, trabalho árduo, capacidade e paixão pelo que faço. No plano profissional, significa estar rodeada de pessoas muito capazes nos órgãos sociais da CE-CPLP e beneficiar da cooperação com os Estados-membros. É também importante realçar a quebra de uma barreira simbólica num espaço empresarial e diplomático tradicionalmente masculino.

Enquanto presidente da CE-CPLP, quais têm sido as principais prioridades da confederação e que projetos considera mais importantes para fortalecer as relações económicas dentro da lusofonia?

As prioridades centrais passam pela promoção de mais negócios intra-CPLP, pelo reforço da cooperação económica empresarial e pela replicação de boas práticas, de forma a mitigar erros e acelerar resultados. Importa reproduzir projetos ou conceitos de sucesso noutros países, adaptando o conhecimento à realidade local. Outras prioridades essenciais dizem respeito a necessidades comuns à maioria dos países da CPLP, em particular os africanos e Timor-Leste, como a certificação de produtos, o que vai permitir criar mercado para exportação, a industrialização e a transformação local, o que vai deixar valor agregado da cadeia produtiva no país. Outra questão prioritária é à urgente necessidade de empregabilidade juvenil. A aposta nas zonas económicas especiais é igualmente estratégica, pois permite captar investidores com capacidade para fomentar a industrialização em troca de incentivos fiscais muito atrativos. Por fim, e de forma decisiva, é fundamental avançar para um instrumento financeiro comum aos nove países, capaz de financiar projetos com impacto real na comunidade e na melhoria da vida das nossas pessoas.

A capacitação dos jovens e das mulheres tem sido uma das bandeiras do seu percurso. Que impacto poderá isso ter no futuro económico e social da lusofonia?

O impacto será enorme e transformador. Os jovens são, inequivocamente, o maior ativo, a luz e a força da comunidade. Este ano lançámos o projeto Start CPLP, que visa apoiar e capacitar jovens tanto para o mercado de trabalho como para o empreendedorismo. Está comprovado que as startups aceleram o crescimento económico dos países. As mulheres representam, para além da força, a própria revolução. A aceleração que se verificou nos últimos anos ao nível tecnológico é comparável àquilo que vai acontecer com a ascensão da mulher no seu papel na sociedade e na liderança, quer nas empresas, quer no setor público. Trata-se de um crescimento extremamente rápido, e ainda bem que assim é, porque o mundo precisa desse equilíbrio.

Mulher, mãe, empresária, gestora, investidora, CEO e fundadora de empresas: como consegue equilibrar tantas dimensões da sua vida e o que mais a desafia nesse percurso?

Obviamente, nem sempre é fácil, mas é possível com uma rede de apoio sólida e com pessoas eficazes e profissionais, que trabalham com a mesma paixão e dedicação que também me caracterizam. Levo muito a sério a frase “só chega ao sucesso quem é capaz de suportar o processo”. Desistir nunca é uma opção. O segredo está na disciplina, no trabalho e também em saber usufruir da vida. São fundamentais os bons momentos com a família e os amigos para recarregar energias. É um privilégio trabalhar nos países da CPLP, todos extraordinários em termos de gastronomia, cultura, clima, turismo e pessoas. Somos, de facto, uns privilegiados.

Ao longo da sua carreira, que valores e aprendizagens considera terem sido fundamentais para construir o seu caminho enquanto líder e empreendedora?

A minha mãe é um dos pilares fundamentais da minha caminhada. É uma mulher de garra, que sabe educar, sempre com muito amor e muita disciplina. Também foi muito importante ter trabalhado com multinacionais desde muito nova, porque ajudou bastante a abrir horizontes. Ao longo da minha carreira, aprendi que liderar e empreender exige coragem e capacidade de servir. Os momentos mais formadores foram aqueles em que tive de decidir com responsabilidade, aprender com os erros, adaptar-me às mudanças e manter sempre uma visão humana, valorizando as pessoas, a colaboração e o impacto sustentável do trabalho. Aprendi igualmente que, muitas vezes, os momentos mais difíceis são solitários. Todos acham que somos infalíveis e que não temos direito a precisar de nada, no entanto, é o que nos torna fortes.

Quando olha para os próximos 30 anos da CPLP, que legado gostaria de deixar e como imagina o futuro da comunidade lusófona?

Dentro do quadro global, imagino um futuro muito risonho. Vejo uma comunidade mais integrada, mais influente e mais capaz de transformar o seu potencial em resultados concretos para os nossos povos. Os países observadores, que já são muitos, compreendem perfeitamente o potencial económico da CPLP; cabe-nos agora materializá-lo e torná-lo real. A CPLP pode e deve afirmar-se como um espaço de cooperação económica, cultural e política com maior densidade estratégica no sistema internacional. A base é extraordinária: países com terra fértil, recursos energéticos relevantes, capacidade agrícola, potencial turístico, diversidade cultural e uma posição geográfica que nos liga a diferentes regiões do mundo. Fortalecer as ligações entre os nossos Estados, desenvolver cadeias de valor, investir em infraestruturas, facilitar o comércio e promover a mobilidade permitirá que a CPLP deixe de ser apenas uma comunidade de afinidades históricas para se afirmar como uma verdadeira plataforma de desenvolvimento e influência global. Uma comunidade que cria oportunidades, gera riqueza e projeta soluções. Um futuro em que o mar que nos separa fisicamente seja, na verdade, o mesmo mar que nos une comercialmente, diplomaticamente e humanamente. Importante terminar com uma lembrança de que todos nós somos CPLP, o que significa que a consolidação na nossa comunidade é responsabilidade comum. Vamos partilhar a nossa irmandade, celebrar as nossas culturas e gastronomia e fazer negócios em português.