Assinalar o Dia da Terra é muito mais do que celebrar uma data simbólica. É reconhecer que a nossa relação com a Natureza terá de mudar de forma profunda, consistente e urgente. A biodiversidade é a base da vida, da economia e do bem-estar. É ela que sustenta os ecossistemas de que dependemos para ter água de qualidade, solos férteis, ar respirável, alimentos, regulação do clima e proteção face a fenómenos extremos. Quando degradamos a Natureza, estamos a fragilizar a nossa própria segurança e o nosso futuro.
Portugal, tal como a Europa e o mundo, enfrenta uma tripla crise ambiental: alterações climáticas, escassez de recursos e perda de biodiversidade. Estas crises estão interligadas e não podem ser tratadas separadamente. Não haverá verdadeira ação climática sem proteção dos ecossistemas, tal como não haverá desenvolvimento sustentável se continuarmos a consumir território, a fragmentar habitats, a pressionar os recursos hídricos e a adiar decisões fundamentais na conservação da natureza. Proteger a biodiversidade é também investir na resiliência do país, na prevenção de riscos, na saúde pública, na coesão territorial e numa economia mais preparada para o futuro.
Importa recordar uma meta absolutamente decisiva para esta década: até 2030, deve estar assegurada a conservação eficaz de pelo menos 30% das áreas terrestres e de águas interiores, bem como de 30% das áreas marinhas e costeiras. Temos hoje mais conhecimento, melhores metas e instrumentos mais robustos do que no passado. Os compromissos internacionais e nacionais assumidos mostram que já não faltam diagnósticos: falta execução. Em Portugal, é indispensável acelerar a aplicação das estratégias existentes, reforçar os meios humanos e financeiros, proteger e restaurar habitats, criar corredores ecológicos, valorizar o espaço marinho, travar a degradação dos solos e integrar a biodiversidade em todas as políticas públicas, do ordenamento do território à agricultura, da floresta à energia. A transição tem de ser rápida, mas também justa e inteligente, para que a resposta à crise climática não crie novos impactos sobre a Natureza.
A Natureza pede ação com escolhas políticas corajosas, compromisso das instituições, envolvimento das empresas e mobilização dos cidadãos. Proteger a biodiversidade é proteger aquilo que torna a vida possível. Garantir o futuro começa precisamente na capacidade de cuidar da nossa casa comum com responsabilidade, visão e sentido de urgência.
Francisco Ferreira, Presidente da ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável
