A Amendouro é uma referência na transformação e comercialização de amêndoa em Portugal. Em entrevista à Mais Magazine, Carlos Araújo, CEO da empresa, fala sobre a evolução do setor, a valorização da produção nacional e a aposta no crescimento e na internacionalização.
A Amendouro tem já uma vasta experiência e ocupa atualmente uma posição de destaque no setor dos frutos secos em Portugal. Como caracteriza a empresa e aquilo que a distingue no mercado?
A Amendouro é uma empresa dedicada à transformação e comercialização de amêndoas e é, atualmente, o operador mais antigo em Portugal no que diz respeito à transformação deste fruto. Eu represento a terceira geração da empresa, que conta já com quase 70 anos de história ligada ao mundo da amêndoa. Ao longo destas décadas, temos vindo a construir um percurso de grande proximidade com a produção, sobretudo na região norte do país. Nos últimos anos, e acompanhando naturalmente a expansão das novas plantações, alargámos também a nossa área de atuação ao centro e ao sul de Portugal. Ainda assim, o nosso foco tem passado, sobretudo, pela valorização da amêndoa nacional, nomeadamente através da transformação e da aposta na exportação. É essa capacidade de acrescentar valor à matéria-prima e de a levar para mercados internacionais que tem marcado o percurso da Amendouro.
Com que tipos de amêndoa trabalham?
Em termos industriais, trabalhamos atualmente a amêndoa nas diferentes fases de transformação possíveis, a partir do seu estado natural. O processo começa com o descasque, do qual resulta o miolo natural, ou seja, a amêndoa com pele. Numa segunda fase de transformação, procedemos à despelagem, retirando a pele, e realizamos posteriormente os diferentes cortes. Desta forma, procuramos disponibilizar uma gama muito completa de produtos à base de amêndoa. Trabalhamos desde a amêndoa com pele e a amêndoa despelada até aos diferentes produtos processados, como a amêndoa laminada, em palitos, granulada ou sob a forma de farinha. Esta diversidade permite-nos responder às diferentes necessidades dos nossos clientes e acompanhar a evolução das utilizações da amêndoa na indústria alimentar.

Como tem evoluído a procura por estes diferentes produtos e que necessidades dos clientes procuram responder? Estamos perante um consumidor mais informado e exigente?
A procura pela amêndoa tem vindo a crescer de forma consistente. Por um lado, estamos perante uma tendência mais ampla no setor alimentar, em que os consumidores valorizam cada vez mais os alimentos naturais e pouco processados, reconhecendo-lhes vantagens do ponto de vista nutricional e de qualidade. Por outro lado, a amêndoa está fortemente associada a um estilo de vida saudável, o que também tem contribuído para o aumento do seu consumo. Esta tendência tem permitido uma maior abertura de mercados e, sobretudo, a entrada em novos mercados onde a amêndoa é cada vez mais valorizada. Temos assistido, ano após ano, a um crescimento gradual do consumo e a uma procura crescente por este tipo de produtos, o que demonstra também que estamos perante um consumidor mais informado e atento àquilo que coloca na sua alimentação.
A origem e a qualidade da matéria-prima são cada vez mais valorizadas pelos consumidores. Que importância têm para a Amendouro as regiões produtoras, nomeadamente o Douro? Quais são as características desta região que considera diferenciadoras para a produção de amêndoa?
Continuamos a ter como principal foco a região de Trás-os-Montes e Alto Douro, que constitui o nosso core business. É nesta região que a amêndoa tem uma história mais longa e onde existe uma forte ligação entre a empresa, os produtores e o próprio território. As características desta região são também diferenciadoras e conferem à amêndoa produzida no Norte do país particularidades que a distinguem das amêndoas provenientes das novas zonas de produção, nomeadamente das áreas de regadio do Centro e do Sul, onde têm sido introduzidas novas variedades e modelos de produção. Naturalmente, acompanhamos o crescimento da produção noutras regiões do país e trabalhamos também essas amêndoas. O nosso objetivo é valorizar toda a produção nacional. No entanto, continuamos a ter um olhar muito especial sobre Trás-os-Montes e Alto Douro, não apenas pela importância histórica desta região para a empresa, mas também pela proximidade que mantemos com os produtores e com o próprio território. A fábrica está localizada aqui, na região onde estas amêndoas são produzidas e colhidas, e essa proximidade faz parte da nossa identidade. Enquanto empresa, mas também enquanto pessoas ligadas à região, identificamo-nos profundamente com os produtos que aqui são produzidos. Por isso, acreditamos que esta continuará a ser uma região estratégica para a Amendouro no futuro.
A sustentabilidade é cada vez mais uma prioridade para o setor. Que medidas tem a Amendouro adotado para tornar a sua atividade mais sustentável, desde a produção ao processamento e à comercialização dos seus produtos?
A agricultura tem vindo a fazer um trabalho muito relevante na área da sustentabilidade, sobretudo através da capacidade de produzir utilizando cada vez menos recursos. Um bom exemplo é a utilização da água, onde se tem conseguido alcançar níveis de eficiência muito significativos. Do lado da Amendouro, enquanto indústria, temos procurado igualmente reduzir a nossa pegada e tornar o processo de transformação mais eficiente. Uma das principais apostas tem passado pela produção da nossa própria energia, através da instalação de sistemas fotovoltaicos. Neste momento, já alcançamos uma capacidade de autoconsumo na ordem dos 75%, o que representa um passo muito importante no nosso caminho para uma maior sustentabilidade energética. O objetivo passa por continuar a aumentar gradualmente esta capacidade e reduzir a dependência energética associada aos processos de transformação da Amendouro. Somos uma empresa de desperdício zero, pois a casca de amêndoa é utilizada como biomassa e a pele da amêndoa e resíduos do processo fabril de despelagem são utilizado como composto orgânico.




Olhando para o futuro, quais são as grandes apostas da Amendouro a médio e longo prazo e quais os principais objetivos que pretendem atingir?
Temos vindo a desenvolver, ao longo dos últimos dez anos, um planeamento estruturado de crescimento e expansão, procurando acompanhar a evolução e o crescimento que se têm verificado também no setor agrícola. Neste momento, estamos a construir uma nova unidade de despelagem, equipada com novas tecnologias, que ainda não se encontra em funcionamento. Este investimento surge, sobretudo, com o objetivo de reforçar a nossa capacidade de exportação para o Norte da Europa, um mercado que tem vindo a revelar um crescimento muito interessante e onde temos registado uma evolução positiva das vendas e do consumo. A nova unidade representa um investimento na ordem dos cinco milhões de euros e será dedicada à segunda transformação da amêndoa, integrando os diferentes produtos processados. Será uma unidade com a maior capacidade instalada do país neste segmento e estará equipada com tecnologia de ponta, quer ao nível da despelagem, quer dos diferentes cortes da amêndoa. Trata-se, portanto, de um investimento estratégico para a Amendouro, que nos permitirá aumentar significativamente a nossa capacidade de transformação, responder de forma mais eficiente às necessidades dos clientes e reforçar a nossa posição nos mercados internacionais, particularmente no Norte da Europa. É um passo importante no crescimento da empresa e, simultaneamente, uma forma de continuarmos a acompanhar a evolução da produção nacional de amêndoa e a criar maior valor acrescentado a partir desta matéria-prima.

