A agricultura de frutos secos ganha cada vez mais expressão em Portugal. Em entrevista à Mais Magazine, David de Almeida, CEO da Duck River Agriculture, fala sobre a evolução da agricultura de frutos secos em Portugal, o potencial de regiões como o Alentejo e a Beira Baixa e o potencial do país nos mercados internacionais.
A Duck River Agriculture tem vindo a afirmar-se no panorama agrícola nacional. Como caracteriza atualmente a atividade da empresa e qual é a sua visão para o desenvolvimento da agricultura de frutos secos em Portugal?
A Duck River é hoje um dos maiores operadores no setor dos frutos secos na Península Ibérica e um importante interveniente no setor do azeite. Gerimos cerca de 3.000 hectares, dos quais mais de 2.000 estão ocupados por amendoeiras e oliveiras, distribuídos por várias regiões de Portugal, e somos proprietários de um lagar de azeite no Alentejo. No total, estamos a falar de cerca de 1,5 milhões de árvores que acompanhamos e gerimos diariamente. O grupo foi criado em 2019, numa altura em que a produção moderna de amêndoa em Portugal ainda dava os primeiros passos e a produção de azeite atravessava um período de forte crescimento, impulsionado, em parte, pela abertura do Alqueva e pela possibilidade de irrigar novas áreas no Alentejo. Enquanto cerca de 80% da produção mundial de amêndoa está concentrada na Califórnia e a Europa é o principal consumidor deste produto, algumas regiões de Portugal apresentavam condições particularmente favoráveis — um clima propício, solos de qualidade e acesso regulado à água — que lhes permitiam assumir-se como futuras referências mundiais na produção de frutos secos. E com custos de produção bastante mais competitivos do que os da Califórnia. Naquela altura, Portugal também tinha ainda uma capacidade de transformação limitada para esta nova cultura.
A Duck River avançou rapidamente para um modelo de integração vertical, criando capacidade própria para o descasque e processamento da amêndoa. O panorama agrícola português mudou profundamente nos últimos dez anos. Atualmente, o país está já posicionado como um importante fornecedor de várias culturas permanentes para os mercados europeus e internacionais, nomeadamente azeite, citrinos, frutos vermelhos, abacate e frutos secos.
No caso específico dos frutos secos, sobretudo da amêndoa e da noz, foram testadas ao longo desta década muitas variedades, sistemas de plantação e novas regiões de produção. A curva de aprendizagem foi bastante acentuada. Considero que o setor, como um todo, está hoje muito mais maduro e começamos a assistir ao surgimento de operadores agrícolas de elevado desempenho, capazes de alcançar produtividades e níveis de qualidade alinhados com os padrões internacionais, oferecendo aos compradores europeus uma origem de abastecimento muito mais próxima. O potencial de crescimento continua a ser enorme, não apenas ao nível da produção agrícola, mas também da transformação industrial, permitindo manter uma maior parcela do valor acrescentado em Portugal.

A Duck River Agriculture desenvolve a sua atividade sobretudo no Alentejo e na Beira Baixa, duas regiões com características agrícolas e desafios muito próprios. O que levou a empresa a apostar nestes territórios e que oportunidades e desafios encontram nestas regiões?
Os primeiros critérios que analisamos num bom projeto agrícola são muito claros: temos o clima adequado? Qual é o estado e a qualidade dos solos? Temos acesso garantido e devidamente regulado à água para irrigação a longo prazo? Existe envolvimento da população local, com vontade de participar no projeto e contribuir para o seu sucesso? Fala-se muito de como a agricultura está cada vez mais tecnológica — e é verdade —mas continua a ser, antes de mais, uma atividade feita por pessoas. As explorações agrícolas não são tão previsíveis como as fábricas. Para ter sucesso, precisamos de profissionais locais qualificados, motivados e empenhados. Verificámos que o Alentejo e a Beira Baixa reuniam estes critérios, embora de formas diferentes. O Alentejo atravessava uma verdadeira “corrida ao ouro” impulsionada pelo Alqueva, e pareceu-nos fazer sentido apostar nesta região, onde adquirimos também a nossa operação ligada ao azeite .Já a Beira Baixa representava uma nova fronteira para a produção de amêndoa. Rapidamente percebemos, contudo, o potencial da região, graças às suas condições climáticas muito favoráveis e a uma forte cultura agrícola.



Portugal conquistou uma posição de destaque no mercado mundial da amêndoa e é hoje um dos principais produtores europeus. Que fatores considera terem sido determinantes para esta evolução e que oportunidades continuam por explorar?
Empresas como a Duck River, seguindo o exemplo de operadores fortes no azeite e outras culturas mais maduras, contribuíram para criar um conjunto de empresas muito atrativas para profissionais qualificados, ao proporcionarem oportunidades de desenvolvimento e crescimento. Através de uma forte adoção de tecnologia, da aposta em práticas sustentáveis — nomeadamente na gestão da água, na biodiversidade, na saúde dos solos e na redução da pegada de carbono —, de uma cultura permanente de investigação e desenvolvimento para melhorar o conhecimento agronómico e o desempenho das explorações, e de um foco muito rigoroso na rastreabilidade, para garantir a qualidade e a segurança alimentar, conseguimos, enquanto setor, construir uma imagem muito forte, tanto da atividade como do próprio país. Essa imagem é reconhecida quer pelas pessoas que queremos atrair para o setor, quer pelos clientes internacionais que compram os nossos produtos. Acredito que o próximo desafio passa por todos os operadores trabalharem melhor em conjunto, partilhando conhecimento, experiências realizadas no terreno e acesso aos mercados. É precisamente por isso que consideramos a Portugal Nuts uma iniciativa tão importante, tanto para a nossa empresa como para todo o setor.
Todos os anos, Portugal recebe milhões de turistas e a imagem do país na Europa e no mundo é extraordinariamente positiva. Temos de saber tirar maior partido desse valor, nomeadamente valorizando a nossa produção agrícola e agroalimentar, e captar uma parcela maior do valor acrescentado que, por vezes, se perde ao longo de cadeias de valor demasiado extensas.
A inovação tecnológica e a agricultura de precisão assumem um papel cada vez mais importante na modernização do setor. De que forma a Duck River Agriculture tem integrado tecnologia, conhecimento e inovação nos seus projetos agrícolas?
Desde o primeiro dia, a Duck River foi construída com base numa forte adoção de tecnologia agrícola, com o objetivo de utilizar a água de forma cada vez mais eficiente, monitorizar e melhorar a saúde dos solos, otimizar a utilização de fatores de produção e, simultaneamente, acompanhar e melhorar o nosso desempenho no terreno. Queremos também estar na vanguarda do setor e oferecer aos nossos clientes uma rastreabilidade integral, de ponta a ponta.
Temos de manter diariamente uma mentalidade orientada para a investigação e desenvolvimento. A agricultura é tanto uma arte como uma ciência. Uma boa produtividade numa determinada exploração ou parcela nunca pode ser atribuída apenas a um ou dois fatores. Estamos constantemente a testar novas aplicações e tecnologias e a medir de que forma contribuem para melhorar a nossa forma de produzir. E, depois, partilhamos esse conhecimento com os nossos pares. Mas inovação nem sempre significa tecnologia de ponta. Por exemplo, percebemos que a introdução de abelhas nos nossos pomares contribui para melhorar a polinização das árvores que, por natureza, são autopolinizadoras. Podemos dizer que a polinização por abelhas é uma forma de tecnologia potenciada pela própria natureza.
Ao mesmo tempo, quando vejo os nossos agrónomos a avaliar remotamente, através de drones, se uma determinada parcela está a apresentar um bom desempenho, ou a utilizar imagens de satélite para verificar o estado fisiológico de uma determinada linha de árvores, ou ainda o nível de agricultura de precisão que conseguimos alcançar através da parceria com a Wisecrop, fico impressionado com o grau de tecnologia que conseguimos integrar na nossa atividade. Mas, no final do dia, continuamos sempre a precisar do olhar experiente dos nossos agrónomos e das suas equipas para acompanhar as nossas 1,5 milhões de árvores.

A disponibilidade de água e a gestão eficiente dos recursos são hoje desafios centrais para a agricultura. Que estratégias têm adotado para garantir uma produção competitiva e, simultaneamente, sustentável?
Tudo passa pela agricultura de precisão: procurar fornecer às árvores exatamente a quantidade de água de que necessitam, gota a gota, em função das condições climáticas do dia e das características do solo. O mesmo princípio se aplica aos restantes fatores de produção. Por um lado, temos o dever de garantir que continuamos a ter ecossistemas sustentáveis daqui a 50, 100 anos e mais. Por outro, essa é também a decisão certa do ponto de vista da competitividade. Estamos constantemente a testar soluções naturais que permitam aumentar a capacidade dos nossos solos para reter nutrientes e água, através, por exemplo, da biofertilização dos solos e da utilização de culturas de cobertura entre as linhas.
Para qualquer empresa agrícola bem gerida, esta deve ser uma preocupação permanente — diria mesmo uma obsessão.Além disso, nunca trabalhamos de forma completamente isolada das comunidades vizinhas e do território onde estamos inseridos. A água, por exemplo, é um recurso partilhado. Através da nossa participação nas associações locais de regantes, procuramos garantir que as decisões que tomamos são as melhores para toda a comunidade.
A profissionalização e a escala são fundamentais para competir num mercado cada vez mais global. Quais são, na sua perspetiva, as principais vantagens competitivas de Portugal face a outros grandes produtores internacionais de frutos secos?
É evidente que Portugal não é o Brasil nem os Estados Unidos. No nosso país, uma exploração com mais de 500 hectares já representa uma dimensão muito significativa. Ainda assim, tem-se verificado uma forte concentração de áreas agrícolas por grandes grupos, sobretudo nas regiões onde essa concentração faz sentido. Existem também zonas do país onde predominam pequenos produtores, e acredito que assim deve continuar. Precisamos dos dois modelos de agricultura. Para grupos com a nossa dimensão, como referi anteriormente, uma das grandes vantagens de Portugal, para além de ser um país europeu — com tudo o que isso implica em termos de alinhamento de regras e mecanismos de apoio — é precisamente a sua imagem e a sua cultura agrícola.
Nas regiões onde operamos existe, de facto, uma longa tradição agrícola, conhecimento acumulado e também um sentimento de orgulho associado à atividade. Isso significa que conseguimos contar, seja internamente ou através de prestadores de serviços, com pessoas verdadeiramente apaixonadas e dedicadas ao que fazem. E Portugal, apesar da sua reduzida dimensão, possui uma formação agronómica de nível mundial.
Da produção à transformação e comercialização, a criação de valor ao longo de toda a cadeia é essencial. Onde considera que Portugal ainda tem maior margem para crescer e aumentar o valor acrescentado dos seus frutos secos?
Só recentemente é que os operadores portugueses começaram a investir em unidades de transformação de maior dimensão, permitindo controlar melhor as margens que podem perder-se ao longo da cadeia. Penso que esse é claramente o caminho a seguir. Alguns operadores, como a marca Better With Almonds, têm a coragem de experimentar também ao nível do desenvolvimento de marcas, e admiro essa iniciativa. Esse poderá ser mais um passo importante para um futuro ainda mais promissor para o setor. A agricultura portuguesa orgulha-se, justamente, da sua qualidade e eficiência. Por vezes, é uma pena verificar que uma parte tão significativa do valor acrescentado acaba por ser capturada pelo cliente B2B seguinte ao longo da cadeia. A aposta na integração vertical e no desenvolvimento de marcas tem conduzido, noutros setores e contextos, a histórias de enorme sucesso, como é o caso da Vale da Rosa, no setor da uva de mesa.


Quais são hoje os principais desafios que o setor enfrenta — desde as alterações climáticas e os custos de produção à mão de obra, mercados internacionais e exigências do consumidor — e que respostas serão necessárias nos próximos anos?
É evidente que as alterações climáticas e a sua crescente imprevisibilidade constituem um enorme desafio para a agricultura em qualquer parte do mundo. O mesmo se aplica à inflação. Existem formas de mitigar estes riscos e, no fundo, todas passam pela precisão com que gerimos as nossas operações. O que nos leva novamente aos pontos que referi anteriormente: tecnologia, pessoas e conhecimento. Diria que precisamos de mais colaboração — através da Portugal Nuts, por exemplo — para conseguirmos responder melhor a estes desafios.
Olhando para o futuro, que papel gostaria que a Duck River Agriculture desempenhasse na afirmação de Portugal como uma referência internacional na produção de frutos secos e quais são as principais metas ou projetos que gostaria de destacar?
Seria absurdo pensar que conseguimos fazer isto sozinhos. Faremos a nossa parte. A nossa missão é simples: queremos fornecer um produto seguro, saudável e de elevada qualidade, sobretudo para os mercados europeus, mas também para outros mercados internacionais. Por exemplo, já vendemos para o Brasil. Seja hoje através da amêndoa e do azeite, seja através de outros produtos no futuro, queremos continuar a contribuir para este caminho. Como referi anteriormente, tendo em conta a excelente imagem de que Portugal beneficia, temos de ser simultaneamente parte da razão pela qual essa imagem é tão positiva e saber aproveitá-la para valorizar melhor os nossos produtos no mercado.

