: 25 de Setembro, 2026 Redação:: Comentários: 0

A agricultura de frutos secos ganha cada vez mais expressão em Portugal. Em entrevista à Mais Magazine, David de Almeida, CEO da Duck River Agriculture, fala sobre a evolução da agricultura de frutos secos em Portugal, o potencial de regiões como o Alentejo e a Beira Baixa e o potencial do país nos mercados internacionais.

A Duck River Agriculture tem vindo a afirmar-se no panorama agrícola nacional. Como caracteriza atualmente a atividade da empresa e qual é a sua visão para o desenvolvimento da agricultura de frutos secos em Portugal?

A Duck River é hoje um dos maiores operadores no setor dos frutos secos na Península Ibérica e um importante interveniente no setor do azeite. Gerimos cerca de 3.000 hectares, dos quais mais de 2.000 estão ocupados por amendoeiras e oliveiras, distribuídos por várias regiões de Portugal, e somos proprietários de um lagar de azeite no Alentejo. No total, estamos a falar de cerca de 1,5 milhões de árvores que acompanhamos e gerimos diariamente. O grupo foi criado em 2019, numa altura em que a produção moderna de amêndoa em Portugal ainda dava os primeiros passos e a produção de azeite atravessava um período de forte crescimento, impulsionado, em parte, pela abertura do Alqueva e pela possibilidade de irrigar novas áreas no Alentejo. Enquanto cerca de 80% da produção mundial de amêndoa está concentrada na Califórnia e a Europa é o principal consumidor deste produto, algumas regiões de Portugal apresentavam condições particularmente favoráveis — um clima propício, solos de qualidade e acesso regulado à água — que lhes permitiam assumir-se como futuras referências mundiais na produção de frutos secos. E com custos de produção bastante mais competitivos do que os da Califórnia. Naquela altura, Portugal também tinha ainda uma capacidade de transformação limitada para esta nova cultura.

A Duck River avançou rapidamente para um modelo de integração vertical, criando capacidade própria para o descasque e processamento da amêndoa. O panorama agrícola português mudou profundamente nos últimos dez anos. Atualmente, o país está já posicionado como um importante fornecedor de várias culturas permanentes para os mercados europeus e internacionais, nomeadamente azeite, citrinos, frutos vermelhos, abacate e frutos secos.

No caso específico dos frutos secos, sobretudo da amêndoa e da noz, foram testadas ao longo desta década muitas variedades, sistemas de plantação e novas regiões de produção. A curva de aprendizagem foi bastante acentuada. Considero que o setor, como um todo, está hoje muito mais maduro e começamos a assistir ao surgimento de operadores agrícolas de elevado desempenho, capazes de alcançar produtividades e níveis de qualidade alinhados com os padrões internacionais, oferecendo aos compradores europeus uma origem de abastecimento muito mais próxima. O potencial de crescimento continua a ser enorme, não apenas ao nível da produção agrícola, mas também da transformação industrial, permitindo manter uma maior parcela do valor acrescentado em Portugal.

David de Almeida, CEO Duck River Agriculture

A Duck River Agriculture desenvolve a sua atividade sobretudo no Alentejo e na Beira Baixa, duas regiões com características agrícolas e desafios muito próprios. O que levou a empresa a apostar nestes territórios e que oportunidades e desafios encontram nestas regiões?

Os primeiros critérios que analisamos num bom projeto agrícola são muito claros: temos o clima adequado? Qual é o estado e a qualidade dos solos? Temos acesso garantido e devidamente regulado à água para irrigação a longo prazo? Existe envolvimento da população local, com vontade de participar no projeto e contribuir para o seu sucesso? Fala-se muito de como a agricultura está cada vez mais tecnológica — e é verdade —mas continua a ser, antes de mais, uma atividade feita por pessoas. As explorações agrícolas não são tão previsíveis como as fábricas. Para ter sucesso, precisamos de profissionais locais qualificados, motivados e empenhados. Verificámos que o Alentejo e a Beira Baixa reuniam estes critérios, embora de formas diferentes. O Alentejo atravessava uma verdadeira “corrida ao ouro” impulsionada pelo Alqueva, e pareceu-nos fazer sentido apostar nesta região, onde adquirimos também a nossa operação ligada ao azeite .Já a Beira Baixa representava uma nova fronteira para a produção de amêndoa. Rapidamente percebemos, contudo, o potencial da região, graças às suas condições climáticas muito favoráveis e a uma forte cultura agrícola.

Portugal conquistou uma posição de destaque no mercado mundial da amêndoa e é hoje um dos principais produtores europeus. Que fatores considera terem sido determinantes para esta evolução e que oportunidades continuam por explorar?

Empresas como a Duck River, seguindo o exemplo de operadores fortes no azeite e outras culturas mais maduras, contribuíram para criar um conjunto de empresas muito atrativas para profissionais qualificados, ao proporcionarem oportunidades de desenvolvimento e crescimento. Através de uma forte adoção de tecnologia, da aposta em práticas sustentáveis — nomeadamente na gestão da água, na biodiversidade, na saúde dos solos e na redução da pegada de carbono —, de uma cultura permanente de investigação e desenvolvimento para melhorar o conhecimento agronómico e o desempenho das explorações, e de um foco muito rigoroso na rastreabilidade, para garantir a qualidade e a segurança alimentar, conseguimos, enquanto setor, construir uma imagem muito forte, tanto da atividade como do próprio país. Essa imagem é reconhecida quer pelas pessoas que queremos atrair para o setor, quer pelos clientes internacionais que compram os nossos produtos. Acredito que o próximo desafio passa por todos os operadores trabalharem melhor em conjunto, partilhando conhecimento, experiências realizadas no terreno e acesso aos mercados. É precisamente por isso que consideramos a Portugal Nuts uma iniciativa tão importante, tanto para a nossa empresa como para todo o setor.

Todos os anos, Portugal recebe milhões de turistas e a imagem do país na Europa e no mundo é extraordinariamente positiva. Temos de saber tirar maior partido desse valor, nomeadamente valorizando a nossa produção agrícola e agroalimentar, e captar uma parcela maior do valor acrescentado que, por vezes, se perde ao longo de cadeias de valor demasiado extensas.

A inovação tecnológica e a agricultura de precisão assumem um papel cada vez mais importante na modernização do setor. De que forma a Duck River Agriculture tem integrado tecnologia, conhecimento e inovação nos seus projetos agrícolas?

Desde o primeiro dia, a Duck River foi construída com base numa forte adoção de tecnologia agrícola, com o objetivo de utilizar a água de forma cada vez mais eficiente, monitorizar e melhorar a saúde dos solos, otimizar a utilização de fatores de produção e, simultaneamente, acompanhar e melhorar o nosso desempenho no terreno. Queremos também estar na vanguarda do setor e oferecer aos nossos clientes uma rastreabilidade integral, de ponta a ponta.

Temos de manter diariamente uma mentalidade orientada para a investigação e desenvolvimento. A agricultura é tanto uma arte como uma ciência. Uma boa produtividade numa determinada exploração ou parcela nunca pode ser atribuída apenas a um ou dois fatores. Estamos constantemente a testar novas aplicações e tecnologias e a medir de que forma contribuem para melhorar a nossa forma de produzir. E, depois, partilhamos esse conhecimento com os nossos pares. Mas inovação nem sempre significa tecnologia de ponta. Por exemplo, percebemos que a introdução de abelhas nos nossos pomares contribui para melhorar a polinização das árvores que, por natureza, são autopolinizadoras. Podemos dizer que a polinização por abelhas é uma forma de tecnologia potenciada pela própria natureza.

Ao mesmo tempo, quando vejo os nossos agrónomos a avaliar remotamente, através de drones, se uma determinada parcela está a apresentar um bom desempenho, ou a utilizar imagens de satélite para verificar o estado fisiológico de uma determinada linha de árvores, ou ainda o nível de agricultura de precisão que conseguimos alcançar através da parceria com a Wisecrop, fico impressionado com o grau de tecnologia que conseguimos integrar na nossa atividade. Mas, no final do dia, continuamos sempre a precisar do olhar experiente dos nossos agrónomos e das suas equipas para acompanhar as nossas 1,5 milhões de árvores.

A disponibilidade de água e a gestão eficiente dos recursos são hoje desafios centrais para a agricultura. Que estratégias têm adotado para garantir uma produção competitiva e, simultaneamente, sustentável?

Tudo passa pela agricultura de precisão: procurar fornecer às árvores exatamente a quantidade de água de que necessitam, gota a gota, em função das condições climáticas do dia e das características do solo. O mesmo princípio se aplica aos restantes fatores de produção. Por um lado, temos o dever de garantir que continuamos a ter ecossistemas sustentáveis daqui a 50, 100 anos e mais. Por outro, essa é também a decisão certa do ponto de vista da competitividade. Estamos constantemente a testar soluções naturais que permitam aumentar a capacidade dos nossos solos para reter nutrientes e água, através, por exemplo, da biofertilização dos solos e da utilização de culturas de cobertura entre as linhas.

Para qualquer empresa agrícola bem gerida, esta deve ser uma preocupação permanente — diria mesmo uma obsessão.Além disso, nunca trabalhamos de forma completamente isolada das comunidades vizinhas e do território onde estamos inseridos. A água, por exemplo, é um recurso partilhado. Através da nossa participação nas associações locais de regantes, procuramos garantir que as decisões que tomamos são as melhores para toda a comunidade.

A profissionalização e a escala são fundamentais para competir num mercado cada vez mais global. Quais são, na sua perspetiva, as principais vantagens competitivas de Portugal face a outros grandes produtores internacionais de frutos secos?

É evidente que Portugal não é o Brasil nem os Estados Unidos. No nosso país, uma exploração com mais de 500 hectares já representa uma dimensão muito significativa. Ainda assim, tem-se verificado uma forte concentração de áreas agrícolas por grandes grupos, sobretudo nas regiões onde essa concentração faz sentido. Existem também zonas do país onde predominam pequenos produtores, e acredito que assim deve continuar. Precisamos dos dois modelos de agricultura. Para grupos com a nossa dimensão, como referi anteriormente, uma das grandes vantagens de Portugal, para além de ser um país europeu — com tudo o que isso implica em termos de alinhamento de regras e mecanismos de apoio — é precisamente a sua imagem e a sua cultura agrícola.

Nas regiões onde operamos existe, de facto, uma longa tradição agrícola, conhecimento acumulado e também um sentimento de orgulho associado à atividade. Isso significa que conseguimos contar, seja internamente ou através de prestadores de serviços, com pessoas verdadeiramente apaixonadas e dedicadas ao que fazem. E Portugal, apesar da sua reduzida dimensão, possui uma formação agronómica de nível mundial.

Da produção à transformação e comercialização, a criação de valor ao longo de toda a cadeia é essencial. Onde considera que Portugal ainda tem maior margem para crescer e aumentar o valor acrescentado dos seus frutos secos?

Só recentemente é que os operadores portugueses começaram a investir em unidades de transformação de maior dimensão, permitindo controlar melhor as margens que podem perder-se ao longo da cadeia. Penso que esse é claramente o caminho a seguir. Alguns operadores, como a marca Better With Almonds, têm a coragem de experimentar também ao nível do desenvolvimento de marcas, e admiro essa iniciativa. Esse poderá ser mais um passo importante para um futuro ainda mais promissor para o setor. A agricultura portuguesa orgulha-se, justamente, da sua qualidade e eficiência. Por vezes, é uma pena verificar que uma parte tão significativa do valor acrescentado acaba por ser capturada pelo cliente B2B seguinte ao longo da cadeia. A aposta na integração vertical e no desenvolvimento de marcas tem conduzido, noutros setores e contextos, a histórias de enorme sucesso, como é o caso da Vale da Rosa, no setor da uva de mesa.

Quais são hoje os principais desafios que o setor enfrenta — desde as alterações climáticas e os custos de produção à mão de obra, mercados internacionais e exigências do consumidor — e que respostas serão necessárias nos próximos anos?

É evidente que as alterações climáticas e a sua crescente imprevisibilidade constituem um enorme desafio para a agricultura em qualquer parte do mundo. O mesmo se aplica à inflação. Existem formas de mitigar estes riscos e, no fundo, todas passam pela precisão com que gerimos as nossas operações. O que nos leva novamente aos pontos que referi anteriormente: tecnologia, pessoas e conhecimento. Diria que precisamos de mais colaboração — através da Portugal Nuts, por exemplo — para conseguirmos responder melhor a estes desafios.

Olhando para o futuro, que papel gostaria que a Duck River Agriculture desempenhasse na afirmação de Portugal como uma referência internacional na produção de frutos secos e quais são as principais metas ou projetos que gostaria de destacar?

Seria absurdo pensar que conseguimos fazer isto sozinhos. Faremos a nossa parte. A nossa missão é simples: queremos fornecer um produto seguro, saudável e de elevada qualidade, sobretudo para os mercados europeus, mas também para outros mercados internacionais. Por exemplo, já vendemos para o Brasil. Seja hoje através da amêndoa e do azeite, seja através de outros produtos no futuro, queremos continuar a contribuir para este caminho. Como referi anteriormente, tendo em conta a excelente imagem de que Portugal beneficia, temos de ser simultaneamente parte da razão pela qual essa imagem é tão positiva e saber aproveitá-la para valorizar melhor os nossos produtos no mercado.