: 13 de Fevereiro, 2026 Redação:: Comentários: 0

O Instituto Hidrográfico, é herdeiro da longa tradição hidrográfica e cartográfica náutica portuguesa e é um dos pilares das Ciências do Mar em Portugal. Criado em 1960, é uma unidade da Marinha, com estatuto de Laboratório do Estado e de Serviço Hidrográfico Nacional, assegura as atividades relacionadas com as ciências e técnicas do Mar, visando a aplicação na área militar, o desenvolvimento científico e a defesa do ambiente marinho.

O Instituto Hidrográfico é responsável pela produção das cartas de navegação oficiais nas áreas de jurisdição nacional, pela manutenção de redes de monitorização oceanográficas (marés, correntes, agitação marítima e parâmetros oceanográficos), desenvolvendo investigação aplicada nas áreas da hidrografia, da oceanografia, da química e da geologia marinha. A atividade é desenvolvida em alinhamento com as estratégias e políticas para o Mar, designadamente os objetivos globais da Agenda 2030 da ONU e da Década do Oceano (2021-2030), bem como as prioridades europeias (Agenda do Crescimento Azul, Diretiva-Quadro Estratégia Marinha) e nacionais (Estratégia Nacional para o Mar 2021-2030).

O Instituto Hidrográfico assume uma posição singular com dupla função: por um lado, atua como Setor da Marinha para as Ciências do Mar, fornecendo informação de apoio às operações navais e à segurança marítima; por outro, um Laboratório do Estado, entidade de referência na produção e gestão do conhecimento do Oceano ao serviço da sociedade, disponibilizando dados, informação e produtos científicos essenciais para a segurança da navegação, gestão sustentável dos recursos marinhos e a proteção dos ecossistemas.

Antes de cada carta de navegação, modelo de previsão costeira ou relatório ambiental, existe um labor pouco visível e muito exigente especializado: a colheita de dados no mar e a realização de ensaios e calibrações acreditados. Grande parte do trabalho do Instituto Hidrográfico decorre longe dos holofotes, nas campanhas científicas a bordo de navios e nos laboratórios. Este trabalho constitui a base essencial na capacidade de deteção de diversos fenómenos e de alterações nos ecossistemas marinhos, que nos afetam quotidianamente, designadamente os efeitos das alterações climáticas e da pressão antropogénica exercida nos oceanos. A bordo dos navios de investigação da Marinha, técnicos do Instituto Hidrográfico colhem amostras de água e de sedimentos, seguindo protocolos rigorosos de amostragem para manter a integridade e representatividade das amostras.

Nos laboratórios do Instituto Hidrográfico, as análises de amostras de água e de sedimentos, bem como a calibração de sensores hidro-oceanográficos, são realizadas de acordo com os mais altos padrões de qualidade, através de métodos analíticos e calibrações acreditados nos termos da norma NP EN ISO/IEC 17025:2018, com reconhecimento do Instituto Português de Acreditação.

A Acreditação impõe requisitos exigentes de competência técnica, de rastreabilidade metrológica, de controlo de qualidade e de avaliação de incerteza, garantindo que os resultados são cientificamente válidos, comparáveis e adequados ao seu propósito, reduzindo o risco de interpretações incorretas que possam levar a decisões erradas. Ao cumprir com estes requisitos, os laboratórios do Instituto Hidrográfico fornecem resultados fiáveis e universalmente aceites, fundamentais para cumprir as obrigações do Estado português em matéria de proteção do ambiente marinho e apoiar a Marinha e outras entidades, oficiais ou privadas, na tomada de decisões informadas e tecnicamente sustentadas.

Na descrição física das amostras de sedimentos, o Instituto Hidrográfico garante a realização de ensaios acreditados na medição do tamanho das partículas que compõem os sedimentos marinhos (ensaios granulométricos realizados a partir de três técnicas distintas), na determinação dos teores totais de carbono orgânico e inorgânico, na quantificação do teor em água e na determinação da densidade de partículas. Estes parâmetros são imprescindíveis na descrição dos sedimentos, parte integrante dos ecossistemas marinhos, e refletem a sua origem e evolução. A capacidade de realizar estas análises em amostras verticais permite alimentar modelos de evolução ambiental e extrapolar a variabilidade temporal dos processos oceanográficos e os seus impactos no sistema biogeoquímico.

No que se refere à avaliação da qualidade ambiental, estão acreditados métodos de ensaio de parâmetros físico-químicos clássicos, de nutrientes, bem como óleos e gorduras e hidrocarbonetos em águas e efluentes, metais pesados e compostos orgânicos em sedimentos, assim como determinações de pH, matéria seca e matéria orgânica em solos e sedimentos.

Através de ensaios acreditados, o Instituto Hidrográfico está capacitado para realizar uma avaliação rigorosa da qualidade ambiental do meio marinho, por exemplo, monitorizando o excesso de nutrientes nas massas de água, em cumprimento da Diretiva-Quadro da Estratégia Marinha (DQEM). Os resultados laboratoriais permitem igualmente verificar o cumprimento das normas e requisitos nacionais aplicáveis, designadamente no que respeita aos valores de referência para a qualidade da água e aos critérios técnicos definidos para a avaliação da qualidade dos sedimentos a dragar.

A determinação de poluentes através de métodos analíticos acreditados permite identificar fontes de contaminação e avaliar riscos ecológicos, com elevada fiabilidade técnicocientífica. Tal é crucial, tanto para a sociedade que beneficia do conhecimento sobre a qualidade dos ecossistemas marinhos, quanto para a Marinha que, através do Instituto Hidrográfico, tem acesso a estudos ambientais de apoio às operações navais. A confiança nos dados produzidos tem valido ao Instituto Hidrográfico um reconhecimento nacional e internacional ímpar.

Desde 2019, e alicerçado na competência dos seus especialistas, o Instituto Hidrográfico, foi aceite como Instituto Designado em Portugal para a Área da Química pelo Instituto Português da Qualidade, estatuto validado pelo Bureau International des Poids et Mesures (BIPM). Este reconhecimento, atualmente aplicável à medição metrológica de sílica em água do mar e de mercúrio em sedimentos, assegura que são mantidos os padrões de referência nacionais nestas medições, a sua rastreabilidade e exatidão. Atualmente, prepara-se a extensão deste estatuto a outros parâmetros essenciais, reforçando o papel do Instituto Hidrográfico como referência na química do ambiente marinho.

Numa aposta contínua no desenvolvimento e inovação, o Instituto Hidrográfico pretende acreditar um novo método analítico forense para identificação da origem de hidrocarbonetos em casos de poluição por derrames destes produtos, segundo a norma internacional EN 15522-2:2023E. Este método, aplicado em apoio à Autoridade Marítima Nacional na investigação de ilícitos ambientais, garante resultados tecnicamente mais robustos e reprodutíveis, com incertezas bem determinadas, conferindo maior credibilidade científica e valor probatório em processos de contraordenação ou de investigação de crimes ambientais. Além disso, a comparabilidade internacional destes resultados facilita a cooperação transfronteiriça em incidentes de poluição que extravasem os limites das áreas, reforçando o reconhecimento do Instituto Hidrográfico junto das autoridades marítimas, do sistema judicial e da comunidade científica internacional.

Para além dos ensaios químicos e biogeoquímicos, a confiança dos dados oceanográficos produzidos pelo Instituto Hidrográfico assenta na medição de parâmetros físicos, nomeadamente pressão atmosférica, pressão hidrostática e temperatura, utilizando sensores calibrados de acordo com a norma NP EN ISO/IEC 17025:2018, tarefa assegurada pelo Laboratório de Calibração do Centro de Instrumentação Marítima, uma infraestrutura essencial para garantir a fiabilidade das medições hidro-oceanográficas realizadas nos navios, boias e estações costeiras. Todas as medições são rastreáveis ao Sistema Internacional de Unidades, assegurando a comparabilidade dos dados ao longo do tempo.

Com a acreditação do Laboratório de Calibração, o Instituto Hidrográfico afirma-se, em Portugal, como referência metrológica no domínio oceânico, assegurando que os dados das campanhas, adquiridos no mar e depois processados, são tecnicamente sólidos e de elevado rigor. Este esforço contínuo em controlar a qualidade instrumental, reflete-se na maior fiabilidade dos sistemas que compõem a rede de observação oceanográfica nacional (como marégrafos, boias oceanográficas e estações costeiras) e, consequentemente, numa melhor compreensão do oceano.

A atividade operacional desenvolvida pela Marinha e pela Autoridade Maritima Nacional também beneficia diretamente deste garante da qualidade: por exemplo, a informação oceanográfica usada em operações navais, desde a previsão de marés para a navegação segura em portos até aos levantamentos hidrográficos para apoiar missões, é recolhida com equipamentos calibrados pelo Instituto Hidrográfico, conferindo confiança acrescida às operações no mar.

Os benefícios da acreditação de ensaios e calibrações são evidentes: um volume enorme de resultados analíticos obtidos ao longo do tempo, em amostras ambientais e séries temporais de marés, temperatura da água ou correntes. Esta informação constitui um arquivo estratégico para o País, contém informações de dados reais que são recorrentemente utilizadas nos modelos de evolução do ambiente marinho, na medida em que podem ser comparadas, ano após ano, sem vieses instrumentais e permitindo quantificar as variações dos parâmetros analisados.

No contexto atual das alterações climáticas, o acesso a este arquivo de dados assume especial relevância para a formulação de políticas públicas de adaptação e mitigação das alterações climáticas, ao detetar tendências ou variações de pequena magnitude que, cumulativamente, causam efeitos muito negativos nos ecossistemas e na sociedade em geral.

Os diagnósticos precisos possibilitam acionar medidas de proteção específicas, seja para limitar e conter os efeitos de eventos de poluição, proteger habitats sensíveis, ou gerir as atividades marítimas de uma forma mais sustentável. Em última instância, todo este trabalho laboratorial “invisível” serve um propósito maior: sustentar a confiança na ciência e assegurar que políticas públicas e atividades económicas ligadas ao mar se baseiem em evidências sólidas.

Num país como Portugal, com uma das maiores Zonas Económicas Exclusivas da Europa e do mundo, garantir a qualidade do conhecimento oceânico não é apenas uma questão utópica, mas sim uma condição essencial para um futuro sustentável.

Desta forma, o Instituto Hidrográfico assume um esteio científico e institucional na comunidade do Mar: as suas práticas exemplares promovem confiança entre a comunidade marítima, do pescador que utiliza as cartas de navegação às autoridades fiscalizadoras e aos decisores que dependem do acesso aos dados fiáveis para garantir o cumprimento de diretivas ambientais, passando pelos investigadores que aprofundam o conhecimento sobre os oceanos.

Investir em ensaios e calibrações acreditados é, em suma, investir na sustentabilidade, no desenvolvimento económico, na formação e preparação de capital humano, na gestão responsável do património oceânico e na preservação dos ecossistemas para as futuras gerações. É, igualmente, cumprir com os desígnios e agendas internacionais subscritos por Portugal, demonstrando na prática o compromisso nacional com a excelência científica, a proteção do meio marinho e o futuro.

No Instituto Hidrográfico, a acreditação não é apenas um selo. É, sim, parte integrante da cultura de qualidade e excelência. Este compromisso com o rigor técnico-científico traduz-se na elevada confiança nos dados que o Instituto Hidrográfico fornece, seja para a Defesa, Economia ou Conhecimento do Mar.

A manutenção de sistemas certificados (ISO 9001) e acreditação em laboratório (ISO 17025) reflete um esforço contínuo de melhoria e inovação, sustentado por uma equipa altamente especializada e dedicada. Os processos acreditados garantem imparcialidade e fiabilidade nos ensaios e calibrações, confirmando formalmente a competência do Instituto Hidrográfico em produzir resultados de elevada qualidade para todas as partes interessadas.

Comprometido com a qualidade e a acreditação, o Instituto Hidrográfico reforça o seu papel de instituição de confiança e rigor técnico ao serviço de Portugal. Atualmente, os marinheiros navegam com segurança, os decisores dispõem de informação credível para melhor gerir e proteger o mar, e a sociedade reconhece neste Instituto um garante de conhecimento fidedigno.

A acreditação, alicerçada nos valores da qualidade, da inovação e do rigor técnico, continuará a ser a palavra-chave que assegura que o Instituto Hidrográfico prossiga no rumo definido, levando avante a sua missão, com competência, relevância e credibilidade.