
O Convento de Cristo, com a sua associação à mística templária e à gesta dos Descobrimentos, e a Festa dos Tabuleiros, na sua singularidade, são os dois ícones de Tomar no mundo inteiro. O primeiro está classificado pela UNESCO como património da Humanidade desde 1983. A segunda já faz parte do inventário do património imaterial nacional, passo inaugural no processo de candidatura à UNESCO em que o Município está a trabalhar.
Tomar insere-se na Rede do Património Mundial da UNESCO com o conjunto patrimonial único constituído pelo Convento de Cristo e pelo Castelo dos Templários, a que se liga o vasto espaço verde da Mata Nacional dos Sete Montes. A estes se junta um importante património construído, classificado ou em vias de classificação, em todo o território concelhio; um Centro Histórico referenciado, quer nacional quer internacionalmente, a que se tem somado a aposta clara numa política pública de incentivo à regeneração urbana; e uma oferta cultural qualificada, com monumentos, museus, exposições e coleções de referência, em alguns casos associados a personalidades da sociedade e da cultura com dimensão nacional mas “umbilicalmente” ligadas ao concelho (entre outros, Fernando Lopes–Graça, José Augusto-França ou Maria de Lurdes Mello e Castro). Refira-se ainda a realização acontecimentos diversificados com forte componente cultural, desportiva, de lazer, religiosa e também de valorização da gastronomia, vinhos e outros produtos do concelho e da região, muitos destes eventos com reconhecimento nacional e internacional, como a Festa dos Tabuleiros, a Festa Templária, o Festival Bons Sons, o Congresso da Sopa ou o Bibliotecando em Tomar, organizados com um considerável empenho de um significativo conjunto de pessoas e coletividades.
O nascimento templário de Tomar
Tomar nasceu na sequência da doação do Castelo de Ceras e seu termo aos Templários, por D. Afonso Henriques em 1159. O território era atravessado a sul pelo rio então chamado Tomar, com um fértil vale limitado a poente por uma cadeia de colinas de relevo acentuado. Foi numa dessas colinas, sobranceira ao rio, que D. Gualdim Pais fundou, em 1160, o castelo e vila de Tomar.
O Castelo Templário/Convento de Cristo foi sede da Ordem do Templo até 1314 e da Ordem de Cristo a partir de 1357. Este conjunto foi classificado pela UNESCO como Património Mundial em 1983. A sua área é de 54 mil m2, sendo 40 mil de área construída coberta, o que equivale a uma cidade média do período medieval. Objetivamente, é a maior área monumental de Portugal e uma das maiores do mundo. São três os centros de interesse a considerar para perceber o sítio: o artístico, consagrado em cada metro linear ou quadrado que se percorra e de que o Portal Principal, a Charola, a Janela da Capítulo e o Claustro de D. João III são picos de excelência; o funcional, que decorre das funções que teve alojando monges-guerreiros e frades em clausura, e a que não falta a mata para encontrar a Natureza; e o do duplo significado da consolidação de um País, primeiro, e a sua expansão pelo Mundo ao serviço de Cristo, depois.

Compêndio de História da Arte e de Portugal
O Castelo dispõe de três recintos mura-lhados, sobressaindo os locais da Charola e da Torre de Menagem. A grande inovação surge com os portentosos “alambores” que guarnecem e reforçam a defesa da muralha. Entre a alcáçova e a charola, no espaço onde foram, no Séc. XV, os Paços do Infante, há vestígios da ocupação muçulmana. O início da construção do Convento deve-se ao Infante D. Henrique, que aqui levantou o seu Paço e os claustros da Lavagem e do Cemitério. A estes se juntariam, no século seguinte, outros sete. São raríssimos, em todo o Mundo, edifícios com tantos claustros, pelo que o Convento também neste caso, assume particular significado. A Arquitetura em Portugal está aqui impressionantemente documentada, asseverando que os edifícios evoluem com quem os habita: a igreja/rotunda templária do Castelo é Românica; o Gótico mostra-se nos claustros do tempo do Infante D. Henrique; no início do Séc. XVI, o Manuelino mostra a sua exuberância na “Janela do Capítulo”; a ampliação do Convento, de D. João III até ao Séc. XVIII, emoldura o Renascimento; o Maneirismo e o Barroco marcaram os claustros da Hospedaria e no Principal e em muitos ornamentos. D. João V, no Séc. XVIII, interveio no púlpito, altar, coro e sacristia-mor. Com a aquisição do complexo, em meados do Séc. XIX, pelo Conde de Tomar, Costa Cabral, é criado em 1843, o primeiro posto de guarda do Convento, passando, desde então, oficialmente, a existir uma função cultural pública dependente do Ministério das Finanças. Só em 1986 esse serviço passa para a alçada dos responsáveis governamentais pela Cultura.
A Festa dos Tabuleiros é um dos pilares da tradição e da alma tomarense. Nenhum outro acontecimento é capaz de mobilizar toda a comunidade, quer esteja próxima ou em qualquer outro ponto do mundo. E, por isso, a Festa é fundamental para congregar vontades e para fazer crescer nos tomarenses o sentimento de pertença. E nada é mais importante para um território do que esse sentimento de pertença que leva os habitantes a terem orgulho na sua terra e a esforçarem-se por darem dela a melhor das imagens, levando assim a que eles próprios sejam agentes do desenvolvimento.
A Festa realiza-se na cidade de quatro em quatro anos, pelo início do mês de julho, mas começa muito mais cedo: ano e meio antes com a decisão do povo tomada nos Paços do Concelho a par da escolha do mordomo; depois com muitos meses de intenso labor organizativo e de criação, em inúmeras casas pelo concelho fora, das flores de papel, dos tabuleiros, dos trajes; finalmente, na rua, a partir do domingo de Páscoa, com as saídas das coroas.
Única no mundo, a principal característica da Festa são os tabuleiros, estruturas com o tamanho aproximado das suas portadoras, nas quais se destacam as flores de papel e os pães verdadeiros, que representam as dádivas da natureza e a partilha com os mais necessitados, encimados pela coroa do Espírito Santo. Com centenas de pares a desfilarem pelas ruas e o contraste entre o branco das vestes e o colorido dos tabuleiros, o cortejo, no dia 9, é um espetáculo deslumbrante.

Desde 2023, a Festa dos Tabuleiros está oficialmente inscrita na lista do Património Cultural Imaterial Nacional. Foi o primeiro passo para a ambição maior, e que tem vindo a ser trabalhada pelo Município de Tomar nos últimos anos, de a candidatar a Património Imaterial da Humanidade, igualmente sob a égide da UNESCO. O trabalho efetuado tem permitido a apresentação pública de livros, documentários e exposições, bem como ações concretas de salvaguarda, por exemplo, das artes populares ligadas à Festa, como a cestaria e a latoaria, que estão na base e no topo do tabuleiro.
