: 21 de Fevereiro, 2025 Redação:: Comentários: 0

Os conhecimentos da produção artesanal de sal marinho da Figueira da Foz foram reconhecidos como Património Cultural Imaterial de Portugal. Em entrevista, Manuela Silva, chefe de Divisão de Museu, Património e Núcleos, revela como essa tradição, parte essencial da identidade local, tem sido mantida viva ao longo dos anos.

Para quem visita a Figueira da Foz, quais são os locais ou experiências que considera imperdíveis?

A quem visita a Figueira da Foz, e se interessa pela sua vertente cultural, não posso deixar de sugerir a visita ao Museu Municipal Santos Rocha, que pode ser entendido como a pequena Gulbenkian da Figueira da Foz, onde se encontram os vestígios que se relacionam com a origem de todo este território e outras coleções de referência. O Centro de Artes e Espetáculos, que oferece espetáculos, exposições e eventos de grande qualidade durante todo o ano. O mercado municipal Eng. Silva, com o colorido das suas bancas, a luz zenital e o apregoar das vendedoras de peixe, imagens de marca da Figueira da Foz. O Bairro Novo, edificado em finais do século XIX e que fez as delícias da sociedade da Belle Époque. Percorrer as ruelas de Buarcos entre a Torre de Redondos, até à muralha do século XVII oferece uma interessante viagem no tempo. Ao nível dos monumentos históricos, incontornável a visita ao Mosteiro de Santa Maria de Seiça, classificado com o estatuto de Monumento Nacional. No que ao património natural e paisagístico diz respeito, é imperdível o por do sol arrebatador e incomparável num dos diversos miradouros da Serra da Boa Viagem. Na ponta ocidental da Serra situa-se o Monumento Natural do Cabo Mondego, de inegável valor científico e geológico e único no mundo e ainda o Farol que há mais de cem anos ilumina toda esta costa atlântica. Os extensos quilómetros de praia lançados ao longo desta costa, são parte integrante da nossa imagem. Na margem sul, pelo Salgado da Figueira da Foz, sugere-se uma visita ao Núcleo do Sal/ futura Quinta Ciência Viva do Sal. O percurso de 4,7 km pela rota das salinas é o corolar desta visita.

O conhecimento tradicional da produção artesanal de sal na Figueira da Foz foi reconhecida como Património Cultural Imaterial. O que significa para si este reconhecimento?

Em 26 de julho de 2023 os “Conhecimentos tradicionais da produção artesanal do sal marinho da Figueira da Foz” foram integrados no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (INPCI).Esta classificação significa o merecido reconhecimento de uma realidade profissional muito importante neste território, que durante anos ditou a vida da comunidade de marnotos e salineiras e moldou substancialmente a nossa paisagem. Jardins de Sal como hoje gostam de lhes chamar, as marinhas que formam hoje o “salgado da Figueira da Foz” e são protagonistas de extraordinários registos fotográficos ou documentários culturais, foram, durante anos, o cenário de vidas mais árduas, de trabalho de sol a sol, para se obter o ouro branco. O reconhecimento desta tradição, não só dignifica este saber fazer, como representa uma importante ajuda no reforço da sua continuidade, incutindo um sentimento de identidade. O Município da Figueira da Foz integra, desde maio de 2023, a Rede Nacional do Património Cultural Imaterial (RNPCI) que está fortemente empenhada no inventário, proteção, dinamização e financiamento para salvaguardar dos conhecimentos e do saber fazer que representam a identidade imaterial de Portugal.

Sendo esta uma tradição já com alguns anos, que medidas estão a ser tomadas para assegurar a sua continuidade no futuro?

O município adquiriu em 2000 a Marinha do Corredor da Cobra, e em 2007 foi edificado o Núcleo Museológico do Sal, um espaço interpretativo que tem um papel ativo junto das comunidades, onde cabe a promoção e divulgação da preservação da salicultura. O Município participa ativamente nos projetos e iniciativas dos programas europeus sobre a problemática da conservação das salinas tradicionais, onde valoriza a atividade salineira tradicional na Figueira da Foz com uma série de publicações de caráter técnico, científico e divulgativo. Através deste, o município trabalha na sensibilização, salvaguarda e promoção, realizando eventos ancorados na biodiversidade local e produtos endógenos, através do serviço educativo com recurso a investigadores e profissionais das áreas ambientais. A Formação em Operador/a de Salinas Tradicionais, realizada pelo IEFP tem sido realizada neste Núcleo. Formamos também marnotos na salina Corredor da Cobra em contexto de trabalho. Durante o decorrer do projeto “Quinta Ciência Viva do Sal”, desenvolveram-se, entre 2023 e 2024, ações sustentadas em processos de cooperação com a comunidade local dinamizadas por artesãos, produtores de sal e outros intervenientes e projetos de investigação relacionados com o sal e a salina em articulação com produtores, empresários, empreendedores, artesãos, estudantes. Assumimo-nos, desta forma, como um centro de informação, educação e sensibilização para a necessidade de preservação de uma atividade tradicional e de um produto artesanal.

O Núcleo Museológico do sal passou recentemente por um processo de requalificação. Que novidades ou melhorias destacaria deste projeto?

A requalificação do Núcleo foi integrada numa candidatura ao EEA Grants com um projeto designado “Quinta Ciência Viva do Sal – Cooperação, salvaguarda e inovação”. Este processo de requalificação, veio trazer novos atores e novas especialidades para este espaço, e intercedeu fisicamente nos edifícios Núcleo e Armazém do Sal, dotando-os de melhores condições ambientais e de trabalho. Criou-se um laboratório experimental de apoio ao serviço educativo e um laboratório para investigação, bem como conteúdos interativos. Reativou-se uma parte da salina que estava inativa, intervencionou-se o Pedarium e toda a zona envolvente de forma a melhorar as acessibilidades ao espaço. Surge assim um novo espaço onde a tradição se une à ciência e à inovação, assegurando a sua continuidade no presente e a sua preservação no futuro.

Para finalizar, como imagina o futuro da Figueira da Foz nos próximos anos?

Alavancada nos grandes projetos que se estão a desenhar e a desenvolver, acreditamos que a Figueira da Foz vai ser uma cidade de referência, procurada em determinadas áreas. O investimento e aposta na Universidade, nas parcerias com centros de ciência, inovação e investigação, habitação, saúde e na correção de desequilíbrios ambientais reforçam a fixação de talentos e de jovens no concelho, e elevam a Figueira da Foz a um importante patamar de desenvolvimento cultural, industrial, científico e económico. Estamos a trabalhar para uma nova cidade mais sustentável, mais competitiva, mais jovem, e com ainda melhor qualidade de vida.