As dores de cabeça ou cefaleias fazem parte da rotina de muitas pessoas. Depois de várias horas em frente ao computador, de um dia intenso de trabalho ou de longos períodos de leitura, é comum surgir uma sensação de peso ou pressão na zona frontal (testa), desconforto em redor dos olhos ou uma dor que aumenta ao longo do dia. A explicação parece quase automática: cansaço, stress ou poucas horas de sono. Mas será sempre assim?
Embora as cefaleias possam ter inúmeras causas e não devam ser automaticamente atribuídas aos olhos, o sistema visual pode, em determinadas situações, contribuir para o seu aparecimento ou agravamento. E, por vezes, a explicação pode ser simples: uma alteração visual não corrigida, uma graduação desatualizada ou ainda a forma como os olhos estão a ser exigidos no dia a dia.
Quando ver bem exige esforço
Miopia, hipermetropia e astigmatismo são alterações refrativas extremamente comuns, mas nem sempre nos apercebemos que não estamos a ver nas melhores condições. A hipermetropia é um exemplo particularmente interessante. Em pessoas mais jovens, a acomodação (capacidade de o olho ajustar o foco para perto) consegue compensar parte desta alteração, permitindo manter uma visão aparentemente nítida. No entanto, ver bem não significa necessariamente fazê-lo sem esforço, sobretudo perante as atuais exigências visuais e longos períodos de trabalho ao perto. Ao longo de várias horas de leitura ou utilização do computador, este esforço pode contribuir para fadiga ocular, sensação de peso nos olhos, dificuldade de concentração ou cefaleia. Também o astigmatismo não compensado ou inadequadamente corrigido pode causar desconforto visual, com sintomas que podem variar consoante o seu tipo. Na miopia, semicerrar os olhos para melhorar a nitidez ou adotar posturas e distâncias de trabalho inadequadas pode aumentar o desconforto e as exigências visuais. Já com o desenvolvimento da presbiopia, pode surgir progressivamente maior dificuldade e esforço nas tarefas realizadas ao perto.
Por isso, uma alteração refrativa aparentemente pequena não deve ser avaliada apenas pelo seu valor numérico. Os sintomas dependem de fatores como a idade, as necessidades visuais, o tipo de erro refrativo e a capacidade individual do sistema visual para o compensar.

Nem tudo se resolve com óculos
Quando existe dor de cabeça associada às tarefas visuais, a refração é apenas uma das peças do puzzle. A capacidade dos olhos para focarem a diferentes distâncias (acomodação) e para trabalharem de forma coordenada também deve ser considerada. Alterações da visão binocular ou dificuldades na convergência (capacidade dos dois olhos se alinharem para ver ao perto) podem tornar determinadas tarefas visualmente exigentes, sobretudo quando realizadas durante longos períodos. A isto junta-se uma realidade cada vez mais presente: os ecrãs ocupam grande parte do nosso dia, muitas vezes em zonas mal iluminadas ou com demasiadas superfícies refletoras.
Olho seco e dor de cabeça
Computadores, telemóveis e tablets exigem períodos prolongados de atenção visual a curta distância. Durante estas tarefas, o padrão de pestanejo pode sofrer alterações, nomeadamente uma redução da sua frequência, favorecendo a instabilidade da película lacrimal (a camada de lágrima que cobre o olho) e o aparecimento de sintomas de secura, ardor, sensação de areia, visão flutuante e cansaço ocular. A secura e o desconforto ocular podem também coexistir com dores de cabeça, existindo uma relação cada vez mais reconhecida entre alterações da superfície ocular e cefaleias. Isto acontece porque a superfície ocular é altamente inervada pelo nervo trigémeo, que desempenha um papel importante na transmissão da dor ocular e da dor de cabeça. A ativação e sensibilização destas vias nervosas poderá contribuir para explicar a associação observada entre sintomas de olho seco, desconforto ocular, fotofobia e cefaleia, particularmente em pessoas com enxaqueca.

Quando devemos pensar numa possível componente visual?
Uma dor de cabeça não permite, por si só, concluir que existe um problema ocular. No entanto, alguns padrões podem justificar uma avaliação visual mais completa. Quando o desconforto surge predominantemente depois de ler, estudar ou trabalhar ao computador; aumenta progressivamente ao longo do dia; é acompanhado por visão desfocada, dificuldade em focar, sensação de peso ou cansaço ocular; ou quando existe a necessidade frequente de aproximar, afastar ou semicerrar os olhos para ver melhor, pode ser importante avaliar como está a funcionar o sistema visual. E essa avaliação não se deve limitar à pergunta: “Precisa de óculos?” Avaliar a refração é fundamental, mas compreender a acomodação, a visão binocular, a superfície ocular e as necessidades diárias de cada pessoa, é igualmente relevante perante determinadas queixas.
Nem todas as dores de cabeça vêm dos olhos
As cefaleias têm múltiplas causas e algumas necessitam de investigação médica. Uma dor de cabeça súbita e muito intensa, um padrão novo ou progressivamente mais frequente, ou sintomas acompanhados por alterações neurológicas ou visuais importantes não devem ser simplesmente atribuídos ao cansaço ocular. Nestes casos deve procurar-se avaliação médica. O objetivo de uma avaliação visual não é explicar todas as dores de cabeça através dos olhos, mas perceber se existe uma componente visual que possa estar a contribuir para os sintomas porque, por vezes, a solução pode ser mais simples do que parece. Vivemos numa época em que exigimos constantemente do nosso sistema visual: trabalhamos, estudamos, comunicamos e passamos grande parte do nosso tempo de lazer a olhar para dispositivos digitais. Exigimos do nosso sistema visual o mesmo que um atleta de elite exige do seu corpo. E a questão é: porque não lhe damos a mesma importância de forma a aumentarmos o nosso rendimento?


Somos todos diferentes!
Cada indivíduo apresenta características, necessidades e exigências visuais específicas, pelo que a abordagem à sua compensação deve ser individualizada. No âmbito da compensação refrativa, da reeducação/treino visual (ortóptica) – nomeadamente ao nível da acomodação e vergência -, e da avaliação e tratamento da superfície ocular, existem diferentes estratégias e uma diversidade crescente de produtos e soluções. O desenvolvimento tecnológico tem permitido soluções cada vez mais diferenciadas e adaptadas não só às características visuais, mas também às exigências das atividades diárias e ao estilo de vida de cada indivíduo.
Neste contexto, é fundamental considerar o sistema visual de forma integrada, incluindo a sua resposta às diferentes tarefas e ambientes. A seleção da estratégia mais adequada deve, assim, resultar de uma avaliação visual cuidada e de uma decisão partilhada entre o profissional de saúde visual e o paciente. O conhecimento técnico e a experiência do profissional são essenciais para orientar esta escolha e proporcionar o melhor equilíbrio entre desempenho visual, conforto e qualidade de vida.
Por tudo isto, quando uma dor de cabeça aparece repetidamente associada às tarefas visuais, talvez valha a pena não olhar apenas para a cabeça, mas também para os olhos. Uma avaliação visual e comportamental completa pode revelar desde uma alteração refrativa até uma dificuldade acomodativa, binocular ou da superfície ocular. E, em alguns casos, corrigir adequadamente a visão ou identificar o fator responsável pelo esforço visual pode fazer uma diferença significativa no conforto do dia a dia.
Porque ver não é apenas conseguir distinguir as letras mais pequenas de uma tabela. É conseguir fazê-lo de forma confortável.
Fabiana Sousa, Mestre em Optometria Avançada e doutoranda na Escola de Ciências da Universidade do Minho; António Martins, Optometrista e Visual Care Manager na Shamir em Portugal; e Madalena Lira, Professora Associada do Departamento de Física da Escola de Ciências da Universidade do Minho

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