: 13 de Março, 2026 Redação:: Comentários: 0

No âmbito do Especial do Dia Mundial da Saúde Oral, conversámos com Henrique Handel, médico dentista e CEO da Dental Light, sobre prevenção, literacia em saúde e o papel das organizações clínicas na construção de uma cultura de responsabilidade e excelência onde reflete sobre o impacto que pequenas decisões diárias podem ter na saúde das pessoas e no futuro do setor.

O Dia Mundial da Saúde Oral tem como tema “Como Pequenos Hábitos Fazem Grande Diferença”. Enquanto clínico e gestor, como interpreta esta mensagem?

A mensagem é extraordinariamente poderosa porque traduz uma verdade simples: a saúde oral constrói-se todos os dias. Não depende apenas de tratamentos complexos ou intervenções sofisticadas, mas sobretudo da consistência de comportamentos básicos – uma correta escovagem dos dentes, usar fio dentário, comparecer às consultas de rotina. Enquanto clínico, vejo diariamente as consequências acumuladas da ausência desses pequenos hábitos. Enquanto gestor, percebo que o nosso papel vai além do tratamento: é também educar, sensibilizar e criar estruturas que facilitem escolhas mais saudáveis. Pequenos gestos, quando repetidos ao longo dos anos, têm um impacto profundo na qualidade de vida.

Henrique Handel, médico dentista e CEO da Dental Light

Considera que ainda existe um défice de literacia em saúde oral em Portugal?

Existe margem clara para evoluir. Ao longo dos últimos anos houve progressos significativos, mas ainda encontramos muitos pacientes que recorrem ao médico dentista apenas em contexto de dor ou urgência. A literacia em saúde não se limita ao conhecimento técnico; implica compreender a importância da prevenção e integrá-la na rotina. A saúde oral continua, por vezes, a ser vista como algo separado da saúde geral, quando na realidade está profundamente interligada com o bem-estar sistémico. Investir em informação clara, acessível e baseada em evidência é uma responsabilidade coletiva das instituições públicas, das ordens profissionais e também das organizações privadas.

Qual é o papel das organizações clínicas na promoção ativa da prevenção?

As clínicas não devem ser apenas locais de tratamento, mas também espaços de educação. Cada consulta é uma oportunidade para reforçar comportamentos preventivos. Isso implica tempo para explicar, capacidade de comunicação por parte das equipas e coerência na mensagem transmitida. A prevenção não pode ser um discurso pontual; tem de estar integrada na cultura organizacional. Quando uma organização assume a prevenção como prioridade estratégica, passa a medir não só tratamentos realizados, mas também acompanhamento, adesão a planos de manutenção e satisfação de longo prazo dos pacientes.

O Especial do Expresso conta com contributos institucionais de referência na área da saúde. Como vê esta articulação entre setor público, ordens profissionais e operadores privados?

Vejo-a como essencial. A saúde oral é um tema de saúde pública e exige convergência de esforços. Quando diferentes entidades partilham uma mensagem alinhada sobre prevenção e qualidade clínica, o impacto é exponencialmente maior. O setor privado tem capacidade de inovação e agilidade; o setor público tem escala e enquadramento estratégico; as ordens profissionais garantem regulação e padrões éticos. Quando estas dimensões se complementam, o beneficiário final é o cidadão.

A confiança continua a ser um dos pilares da medicina dentária. Como se constrói essa confiança num contexto de maior exigência e informação por parte dos pacientes?

Constrói-se através de três elementos fundamentais: transparência, competência e consistência. Transparência na explicação do diagnóstico e das opções de tratamento. Competência clínica sustentada em formação contínua. Consistência na experiência desde o primeiro contacto até ao acompanhamento pós-tratamento. O paciente de hoje é mais informado e mais exigente, o que é positivo. Isso eleva o padrão do setor e obriga as organizações a serem cada vez mais rigorosas.

A inovação tecnológica tem sido uma marca forte da evolução da medicina dentária. Como equilibra tecnologia e humanização?

A tecnologia é uma aliada poderosa, melhora diagnósticos, aumenta precisão e reduz desconforto. No entanto, nunca pode substituir a dimensão humana. A relação médico-paciente continua a ser central. Empatia, escuta ativa e proximidade são insubstituíveis. A tecnologia deve libertar tempo e aumentar qualidade, permitindo que o profissional se concentre ainda mais na pessoa que tem à sua frente.

Fala-se muito de crescimento e escala no setor. Como garantir que a expansão não compromete qualidade clínica?

O crescimento só é sustentável quando está ancorado em processos sólidos e cultura clara. Protocolos clínicos bem definidos, formação contínua, auditorias internas e indicadores de qualidade são ferramentas indispensáveis. Mas existe um fator muitas vezes menos visível: liderança. É necessário garantir que as equipas partilham valores e visão comuns. Sem alinhamento cultural, a escala pode diluir identidade. Crescer na saúde é um exercício de responsabilidade. A reputação constrói-se ao longo de anos e deve ser protegida em cada decisão estratégica.

Que mensagem gostaria de deixar no âmbito deste Dia Mundial da Saúde Oral?

Que a saúde oral é um investimento diário. Não é um luxo nem um tema secundário. Pequenos hábitos consistentes transformam resultados clínicos, autoestima e qualidade de vida. E acrescentaria que as organizações de saúde têm o dever de facilitar esse caminho, através de informação clara, acesso responsável e padrões de excelência. Se conseguirmos alinhar educação, prevenção e qualidade, estaremos não apenas a tratar dentes, mas a contribuir para uma sociedade mais saudável e consciente.