: 26 de Junho, 2026 Redação:: Comentários: 0

Fundadora da Craft Gardens, Marta Ramada trocou mais de duas décadas no mundo corporativo pela criação de esculturas têxteis que cruzam artesanato, design e sustentabilidade. Inspirada na tradição dos Pajaki polacos e no saber-fazer português, a criadora tem vindo a afirmar a sua marca no panorama da arte têxtil contemporânea, com presença em exposições e projetos de hotelaria de luxo em Portugal e além-fronteiras.

Antes de falarmos da Craft Gardens, quem é a Marta Ramada e de que forma a arte, a criatividade e o design influenciaram o seu percurso até aqui?

Cresci numa família onde a arte e a arquitetura estavam presentes, o que moldou desde cedo a minha relação com a estética, os materiais e o gesto manual. Habituei-me a observar ambientes, luz, cor e textura, percebendo como pequenos detalhes podem transformar a experiência de um lugar. Profissionalmente, desenvolvi o meu percurso na área do marketing, trabalhando durante duas décadas com marcas, comunicação e estratégia. Essa experiência deu-me uma compreensão profunda da identidade, da narrativa e da construção de significado. Sempre existiu, porém, uma dimensão mais artística e sensível que procurava expressão. Hoje vejo o meu percurso como o encontro entre a linguagem das marcas e a linguagem da matéria. Através da Craft Gardens encontrei uma forma de unir criatividade, sensibilidade e trabalho manual numa expressão artística própria.

Marta Ramada, Fundadora da Craft Gardens

Como nasceu a Craft Gardens e qual foi a inspiração que esteve na origem deste projeto?

A Craft Gardens nasceu em 2022, em Matosinhos, a partir de uma descoberta muito especial: a arte polaca Pajaki, uma tradição popular do século XVIII em que mulheres das zonas rurais criavam estruturas suspensas com palha de centeio, papel colorido e outros materiais simples para celebrar colheitas, festividades e momentos de alegria. Senti uma ligação imediata àquela linguagem feita de cor, movimento e intenção. Estudei a técnica de forma autodidata, mas rapidamente percebi que não queria reproduzi-la; queria reinterpretá-la através de uma linguagem contemporânea, cruzando tradição artesanal, design, sustentabilidade e identidade portuguesa.

O nome Craft Gardens nasce da ideia de criar jardins suspensos: composições que introduzem luz, textura e poesia nos espaços. Mais do que objetos decorativos, procuro criar peças que despertem contemplação, harmonia e bem-estar. Os Pajaki deram-me a raiz. Portugal deu-me os materiais, o saber-fazer e a escala. E as mãos deram-me a forma de transformar essa inspiração numa linguagem própria.

A Craft Gardens combina artesanato, design e sustentabilidade. Que tipo de peças desenvolve atualmente e o que procura transmitir através delas?

Atualmente desenvolvo esculturas têxteis suspensas, chandeliers, instalações luminosas, painéis de parede e peças concebidas para contextos residenciais, hotelaria, galerias e projetos curatoriais. Cada peça nasce de um processo artesanal onde os tassels são construídos individualmente e organizados em composições que exploram ritmo, textura, cor, luz e movimento. Interessa-me particularmente a forma como dialogam com a arquitetura e influenciam a experiência de quem habita um espaço. É aquilo a que chamo arquitetura emocional. A sustentabilidade faz parte deste processo de forma natural. Trabalho com ECONYL®, um fio regenerado a partir de redes de pesca e resíduos industriais, porque acredito que a beleza contemporânea deve nascer de uma relação mais consciente com os materiais. Num mundo cada vez mais acelerado, procuro criar peças que convidam à contemplação, transformando a atmosfera dos lugares através da matéria, da luz e do gesto manual.

Até 31 de agosto, participa na exposição Quiet Objects, integrada na Lisbon Design Week. O que representa para si fazer parte desta mostra e apresentar o têxtil como uma forma de arte contemporânea?

A Quiet Objects é particularmente relevante porque integra o têxtil numa conversa mais ampla sobre arte, design e materialidade contemporânea. Durante muito tempo, o têxtil foi associado sobretudo ao universo decorativo ou funcional. Hoje assistimos a um reconhecimento crescente da sua dimensão artística, escultórica e conceptual. O contexto da exposição reforça esta leitura. Apresentada pela THE CURATED Lisbon, com curadoria de Irina Gordienko, no âmbito da Lisbon Design Week, a Quiet Objects propõe um diálogo sensível entre arte, design e espaço habitado. No The Vintage Hotel, as obras convivem com a arquitetura, a luz e os gestos do quotidiano, integrando-se naturalmente num ambiente vivido. O meu trabalho parte precisamente dessa relação. Interessa-me explorar o potencial do têxtil para criar presença, atmosfera e emoção. Participar nesta mostra é, acima de tudo, contribuir para uma visão mais alargada do têxtil contemporâneo: uma linguagem capaz de ocupar o espaço com a mesma força poética e expressiva de qualquer outra forma de arte.

Está também envolvida no projeto de decoração do Hotel Kimpton na Quinta da Marinha. Que desafios e oportunidades encontra ao levar o seu trabalho para um projeto desta dimensão?

O universo da hotelaria interessa-me particularmente porque trabalha a relação entre espaço e experiência humana. Neste contexto, uma instalação artística não é apenas um elemento decorativo; torna-se parte da narrativa do lugar e da memória de quem o vive. O grande desafio esteve em preservar a alma artesanal do trabalho numa instalação de grande escala. Cada tassel continua a ser produzido manualmente, mas o conjunto tem de responder a exigências técnicas muito específicas, desde a iluminação e suspensão até à segurança e integração no conceito de interiores. O resultado foi a instalação Mediterranean Garden of Light, criada para o lobby do Hotel Kimpton Quinta da Marinha, em Cascais. Composta por sete chandeliers monumentais e uma estrutura têxtil suspensa sobre a receção, a obra reúne 389 tassels produzidos manualmente no atelier da Craft Gardens, transformando o lobby num jardim suspenso de luz, movimento e matéria. Desenvolvido em colaboração com o estúdio de design de interiores Goddard Littlefair, este projeto permitiu-me explorar uma dimensão mais arquitetónica do meu trabalho e reforçou a convicção de que a arte têxtil pode desempenhar um papel ativo na forma como vivemos e sentimos os espaços — não como ornamento, mas como parte integrante da sua identidade.

Quais são os principais objetivos da Craft Gardens para os próximos anos e que projetos podemos esperar?

Quero consolidar a Craft Gardens como referência internacional em arte têxtil contemporânea, com raízes profundamente portuguesas. O percurso já tem marcos que me orgulham: a Paris Design Week 2025, numa das exposições mais marcantes da edição AICEP com curadoria de Nini Andrade Silva; a Milan Design Week 2026, com curadoria do arquiteto Victor Niskier; e a Quiet Objects no Vintage Hotel, patente até 31 de agosto. Em breve, uma nova presença no Hotel Tivoli em Vilamoura, com curadoria de Ana Goulão. Cada projeto é uma afirmação: o design português de autor tem escala, tem identidade, tem lugar no mundo. O próximo passo passa por aprofundar colaborações com projetos de hospitalidade de luxo, arquitetos, designers de interiores e curadores, explorando cada vez mais a escala arquitetónica das peças e a sua capacidade de transformar a experiência dos espaços. Estou também a desenvolver edições limitadas para colecionadores, onde cada peça vem acompanhada da sua história e processo. O fio condutor será sempre o mesmo: escala, cor e matéria ao serviço de uma arquitetura emocional. Espaços que se sentem. Objetos que ficam.